Você sabe por que o seu voto é secreto?

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A primeira eleição em solo brasileiro aconteceu em São Vicente, litoral de São Paulo, em 1532. Desde então, o processo eleitoral brasileiro passou por diversas mudanças. Entre elas, a conquista do voto universal e secreto.

A Politize!, preparou um material que conta o a história do voto secreto no Brasil. Confira.

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Urna Eletrônica
Urna Eletrônica. Foto: Antonio Augusto/Ascom/TSE.

O voto brasileiro no contexto histórico

Em 2021, comemorou-se 200 anos das primeiras eleições nacionais para deputados no Brasil. A data remete à primeira vez que os cidadãos brasileiros escolheram representantes fora do âmbito municipal, em 1821.

Veja também nosso vídeo sobre votos brancos e nulos!

Segundo o historiador José Theodoro Mascarenhas Menck, “Na história constitucional e legislativa brasileira existe uma vinculação muito grande, e próxima, entre as Cortes lisboetas de 1821 e a nossa primeira assembleia constituinte de 1823”.

Por isso, é necessário avaliar o contexto histórico e político do Brasil Colônia para entender o embrião que gerou a política brasileira.

Saiba mais sobre o assunto em: 1808: Corte Portuguesa e a Monarquia no Brasil

Durante esse primeiro momento, não existia uma lei nacional de regulamentação para eleições gerais. Assim, a escolha dos 72 representantes do legislativo brasileiro dentro das cortes portuguesas seguiu o modelo da Constituição Espanhola.

As principais características dessa eleição foram:

  • Os eleitores eram os homens livres e, diferentemente de outras épocas da história do Brasil, os analfabetos também podiam votar;
  • Os partidos políticos não existiam;
  • O voto não era secreto.

Apenas depois de conquistar sua independência, o Brasil elaborou sua primeira legislação eleitoral.

Mas é preciso ressaltar que ambos os períodos (Colonial e Imperial) encontraram maneiras de burlar o sistema de votos.

Isso acontecia com a utilização de diversos mecanismos, como o voto por procuração, no qual o eleitor transferia seu direito para outra pessoa. Também não existia o título de eleitor, o que facilitava ainda mais a fraude eleitoral.

Além disso, o voto era censitário, o que significava que apenas uma parcela da população poderia participar das eleições. De acordo com a Constituição de 1824, entre outros critérios, era necessária uma renda líquida anual superior a 200 mil réis para poder votar.

Modelo de Título de Eleitor de 1882
Modelo de Título de Eleitor de 1882. Acervo do Memorial da Justiça Eleitoral.

Em 1881, com a Lei Saraiva, surge no Brasil o primeiro modelo de Título de Eleitor. Na época, o documento não contava com foto e dispunha de dados como o nome completo, idade, profissão, filiação, estado civil, renda, domicílio e informações a respeito do alistamento eleitoral.

Leia também: Título de eleitor: a história do documento eleitoral!

A legislação também foi responsável por estabelecer as eleições diretas no país. É importante lembrar que, na época, já havia um forte movimento republicano no Brasil, o que contribui para o início das mudanças no processo eleitoral brasileiro.

Com a Proclamação da República, três novos modelos do documento foram criados:

  • O primeiro foi proposto em 1890, com o Decreto nº 200-A, que era conhecido como Regulamento Lobo e extinguiu o voto censitário;
  • Até a criação desse documento, o Estado brasileiro atuava em conjunto com as igrejas, já que o cadastro eleitoral era realizado dentro das paróquias;
  • O segundo surgiu em 1904, com a unificação dos documentos que serviam para votar nas eleições municipais, estaduais e federais. A lei nº 1.269/1904 foi proposta pelo senador Rosa e Silva e foi considerada inconstitucional pelo STF;
  • Doze anos depois, em 1916, o terceiro modelo foi instaurado pela Lei 3.139/1916, entregando a responsabilidade do alistamento eleitoral nas mãos do Poder Judiciário.

As fraudes que marcaram a República Velha

Para chegar na criação do voto secreto, o Brasil passou por algumas etapas, ainda na República Velha. Entre elas, é possível destacar alguns pontos:

  • O poder econômico do país ficava centralizado nas mãos de coronéis donos de terras em São Paulo e Minas Gerais, onde eram produzidos os maiores produtos do Brasil: o café e o leite;
  • Essa concentração de poder ficou conhecida como “coronelismo”, um tipo de oligarquia que realizava a manutenção dessa força política predominante na época;
  • O coronelismo exercia sua influência nas votações dos estados e depois, para o cargo da presidência;
  • Essa influência ficou conhecida como “voto de cabresto”, onde o patrão (o coronel) cobrava o voto do funcionário no político de sua escolha, em troca de favores;
  • Esse voto controlado criou a “política café com leite”, onde paulistas e mineiros se alternavam para assumir os cargos públicos.

Saiba mais: Voto de cabresto: contexto histórico e práticas atuais

O voto e secreto e universal como direito constitucional

Com o fim da Primeira República, Getúlio Vargas assume a presidência do Brasil em 1930. No início do seu mandato, em 24 de fevereiro de 1932, o governante emitiu um decreto que instaurava no Brasil o novo Código Eleitoral.

Código Eleitoral de 1932
Estadão – 25/02/1932 Foto: Acervo/Estadão.

O momento era de instabilidade política e, segundo jornais da época, dois movimentos que haviam acontecido há pelo menos uma década antes, exerciam grande influência a respeito da decisão:

Com essas duas conquistas, o voto se tornava mais seguro e amplo. Mesmo assim, as garantias não duraram muito tempo. Em 1937, iniciou-se o período ditatorial conhecido como ‘Estado Novo’, que extinguiu as eleições brasileiras.

O período durou até 1945, quando Vargas entregou o cargo e suicidou-se.

Leia também: O Estado Novo: fascismo nos trópicos?

A frágil democracia que surgiu depois de Vargas elegeu quatro presidentes antes de se perder novamente. Ou seja, essa não foi a última vez que o povo brasileiro perdeu o seu direito ao voto direto para o cargo da presidência.

Durante os quase vinte anos da Ditadura Militar (1964-1985), as eleições existentes eram apenas para cargos legislativos, com apenas dois partidos legítimos existentes: ARENA e MDB.

Veja também: Ditadura Militar no Brasil

A redemocratização e a Constituição Cidadã

No início da década de 80, a insatisfação com o Regime Militar atingiu seu ápice no Brasil. movimentos sociais como o conhecido “Diretas Já” faziam pressão no governo para eleições diretas para a presidência.

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Termo de Posse de Tancredo Neves anulado
Termo de Posse de Tancredo Neves anulado – Agencia Senado.

Mesmo com a força popular, as eleições indiretas foram mantidas e a chapa Tancredo Neves e José Sarney foram eleitos. Antes de assumir o cargo, Tancredo fica doente e Sarney acaba exercendo a função.

Esse é o fim da Ditadura Militar no Brasil e o início de um período de conquistas importantes para os eleitores brasileiros.

Durante o mandato de Sarney, foi promulgada a ‘Constituição Cidadã’ e com ela, o voto secreto e universal foi consolidado. Além disso, com o trabalho da Justiça Eleitoral, a idoneidade das eleições foi garantida com a implementação das urnas eletrônicas, em 1996.

Eleições no século XXI: como saber que meu voto é realmente secreto?

Nos últimos anos, diversas notícias falsas circularam na internet a respeito das eleições brasileiras, mas o voto no Brasil é totalmente secreto.

E é possível ter certeza disso já que todo o processo da votação é auditável. O Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo destacou alguns métodos que são utilizados para garantir a segurança do eleitor:

  1. Verificação do resumo digital (hash);
  2. Reimpressão do Boletim de Urna;
  3. Verificação de assinatura digital;
  4. Auditoria do código-fonte lacrado e armazenado no cofre do TSE;
  5. Recontagem dos votos por meio do Registro digital do Voto (RDV);
  6. Comparação da recontagem do RDV com os boletins de urna (BU’s);
  7. Auditoria de Funcionamento das Urnas Eletrônicas sob Condições Normais de Uso.

É possível aprender mais sobre cada etapa desses processos no portal do TRE. Além disso, vale ressaltar que todas essas verificações de segurança são disponibilizadas para a participação popular e de todos os partidos políticos.

Agora que você já sabe mais sobre a história da conquista do voto secreto no Brasil, que tal continuar aprendendo com a Politize!? Acesse nosso material para se manter informado sobre a política brasileira e exercer sua voz política de maneira consciente!

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Conteúdo escrito por:
Por ser apaixonada por leitura desde pequena, escrever se tornou minha profissão e parte da minha identidade. Sou caiçara, jornalista e curiosa sobre como as relações sociais e políticas funcionam.

Você sabe por que o seu voto é secreto?

21 jul. 2024

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