O conflito entre Israel e Palestina: da Resolução 181 da ONU ao início dos anos 90

Este é o segundo texto de uma trilha de conteúdos sobre Israel e Palestina. Confira os demais posts da trilha: 123 

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No texto anterior, contamos a história do conflito entre Israel e Palestina durante o domínio do Império Romano, em seguida pelo Império Turco-otomano e então pelo Império Britânico. Falamos sobre a diáspora dos judeus durante esse período e seu retorno à região principalmente durante o Holocausto e a disputa do território entre judeus e palestinos.

Nesse segundo texto da nossa trilha, vamos te explicar como foi feita a partilha do território de Israel e Palestina pela ONU e a sequência dos conflitos até a assinatura dos Acordos de Camp David.

Imagem: Flickr – Autor: Daniel Lobo

palestina

Resolução 181: a partilha da Palestina (1947)

Em 1947, por meio da Resolução 181, a ONU cria o Estado de Israel e o Estado da Palestina, dividindo as terras da região: 55% para os judeus e 45% para os muçulmanos, cuja população era o triplo da de judeus. Além de ter um território maior, os judeus teriam as terras mais férteis. Os judeus aceitam a proposta. Os palestinos, por sua vez, rejeitam.

A independência de Israel (1948)

Após a Resolução de 181, entre 1947 e 1949, o conflito entre Israel e Palestina continuou. A Haganá e os outros grupos paramilitares dos judeus derrotaram o exército palestino e expulsaram muitos palestinos que estavam nas terras delimitadas pela ONU como território de Israel.

Em 14 de maio de 1948, um dia antes do mandato britânico sobre a Palestina expirar, o líder israelense declara a independência de Israel. Mas os judeus não têm nem tempo de comemorar: um dia depois, os exércitos da Liga Árabe – formada por Egito, Jordânia, Síria, Líbano, Iraque e os árabes palestinos – invadem Israel, buscando impedir que o novo Estado se consolide. Em março de 1949 a Liga Árabe – que apesar de mais numerosa, carecia de uma liderança efetiva – é derrotada.

Al Nakba (1947-1949)

No total, nesses três anos de guerras (1947-1949) entre judeus e árabes, mais da metade da população dos palestinos que viviam na região é expulsa de suas casas. Os palestinos chamam essa diáspora de Al Nakba (a catástrofe).

Diáspora de palestinos em 1948 – Foto: Flickr

Organização para Libertação da Palestina – OLP (1964)

Como os palestinos não tinham uma liderança que unisse todos e negociasse o estabelecimento do seu Estado, eles acabaram se espalhando pela Jordânia e pelo Líbano. Os territórios que seriam do Estado Palestino foram absorvidos por outros países árabes: a Faixa de Gaza foi ocupada pelo Egito e a Cisjordânia pela Jordânia.

Os diversos grupos que lutavam pelos direitos dos palestinos se unem em 1964 e criam, na Jordânia, a OLP – Organização para Libertação da Palestina. O maior desses grupos era o Fatah, e seu criador, Yasser Arafat, passa a presidir a OLP. É importante ressaltar que, apesar de todos estarem unidos em torno do objetivo de “libertar” a Palestina dos judeus, e de a OLP ser a voz de todos eles, a organização não era, de forma alguma, um grupo homogêneo. Alas mais radicais defendiam ações mais violentas, e alas mais moderadas preferiam a negociação.

Guerra dos Seis Dias (1967)

Tendo como justificativa uma ameaça de invasão árabe, essa guerra se iniciou com um ataque surpresa de Israel contra Egito, Jordânia e Síria. Esse conflito intensificou as tensões entre israelenses e palestinos, pois culminou na ocupação de novos territórios por parte de Israel, expandindo ainda mais o seu território em relação à partilha feita pela ONU em 1948. Os territórios ocupados nessa ocasião foram: algumas áreas da Península do Sinai, da Faixa de Gaza, as Colinas de Golã, Cisjordânia e toda a cidade de Jerusalém.

A guerra, como o nome diz, durou 6 dias e tem duas versões. Para Israel, ela foi um ataque preventivo, pois o Egito já vinha dando mostras de que um ataque a Israel era iminente. Os países árabes, por sua vez, alegam que o ataque foi covarde e injustificado, baseado em mentiras e que Israel pretendia conquistar o território, não se defender.

A tentativa de assumir o controle da Jordânia (1970)

Os refugiados palestinos foram para Síria, Jordânia e Líbano. A Organização para a Libertação da Palestina (OLP) se exilou na Jordânia e com Yasser Arafat ainda no comando, começou a ganhar força como entidade representativa dos palestinos.

Depois da derrota para Israel e da perda da Cisjordânia, era possível imaginar que a Jordânia –  bem como seu exército – estavam enfraquecidos. Foi exatamente o que Yasser Arafat pensou. O líder da OLP viu esse momento como uma oportunidade ideal para tentar dar um golpe e assumir o controle da Jordânia. Pelo raciocínio dele, seria mais simples fazer desse país o lar dos palestinos do que continuar enfrentando Israel pela posse da  Cisjordânia. A tentativa de derrubar o rei acontece em 1970 e fracassa; Yasser Arafat e todos os seguidores da OLP são expulsos do país. Sem ter para onde ir, acabam indo para o sul do Líbano.

Massacre de Munique (1972)

Em 1972, uma ala radical da OLP, conhecida como Setembro Negro, vai às Olimpíadas de Munique e toma como reféns 11 atletas israelenses. Sequestradores e reféns acabam mortos, e esse incidente faz com que a causa palestina e o conflito com os israelenses – até então ignorados pelas grandes potências do mundo – ganhe destaque na mídia internacional.

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Guerra do Yom Kippur (1973)

O Yom Kippur, Dia do Perdão, é um dos principais dias santos para os judeus. Aproveitando-se disso e utilizando o mesmo argumento judeu na Guerra dos Seis Dias (ameaça de invasão), Egito e Síria atacaram Israel durante o Yom Kippur, sem declaração de guerra. Israel perde a Península do Sinai e as Colinas de Golã, mas graças à ajuda militar dos Estados Unidos, consegue recuperar esses territórios.

Mesmo sem ter conseguido tomar de volta nenhum território perdido na Guerra dos Seis Dias, os árabes se dão por satisfeitos: primeiro porque sentiram-se vingados pelo ataque surpresa sofrido na Guerra dos Seis Dias e segundo, porque mostraram que se não fosse a intervenção americana, teriam derrotado Israel.

Essa demonstração de força dos árabes muçulmanos e a constatação de que haviam se tornado um grupo mais organizado foi um fator decisivo para que Israel começasse a cogitar um acordo de paz.

Hasteamento da bandeira do Egito na península do Sinai durante Guerra do Yom Kippur – Foto: Flickr

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Unificação dos Palestinos e reconhecimento da OLP (1974)

Em 1974, dois acontecimentos ajudam a delinear uma liderança unificada dos palestinos,  aquilo que muitos estudiosos entendem como crucial para a criação de um Estado palestino. Esses eventos foram:

  • Declaração da liga Árabe de que a OLP era a única representante legítima do povo palestino;
  • Reconhecimento da Assembleia Geral da ONU que a OLP seria a entidade competente em qualquer assunto que diga respeito à Palestina.

Apesar de não ser um Estado, a OLP passa a fazer parte da ONU como um ente observador. Os constantes ataques da OLP a Israel também tiveram um grande peso para que se tentasse estabelecer o diálogo entre as duas nações.

Acordos de Camp David (1979)

Nos Acordos de Camp David, mediados pelos Estados Unidos, Israel e Egito se comprometem em estabelecer a paz.

No ano seguinte o Egito abre mão da Faixa de Gaza, inclusive reconhecendo o Estado de Israel, sendo o primeiro país da região a fazer isso. Israel devolve a Península do Sinai, agora como uma região desmilitarizada. Por esse acordo, os líderes egípcio – Anwar el-Sadat – e israelense – Menachem Begin – recebem, em conjunto, o Prêmio Nobel da Paz.

Em decorrência desse acordo, alguns anos mais tarde, ambos seriam assassinados por extremistas nacionalistas de seus respectivos países, contrários a qualquer tentativa de reconciliação. Agora que os palestinos tinham uma liderança unificada e que o Estado de Israel mostrava-se disposto a buscar a paz com seus vizinhos árabes, parecia que um acordo sobre o Estado palestino era viável, certo? Errado.

O próximo texto conta como essa história continua até os dias atuais. Fique ligado em nosso site, ele será publicado na próxima semana!

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Referências do texto: confira aqui onde encontramos dados e informações!

Em português:

BBC – 10 perguntas para entender o conflito entre israelenses e palestinos

Youtube: Jerusalém

Youtube: A guerra dos seis dias

Em inglês:

O’Malley, Padraig –  The Two-State Delusion: Israel and Palestine–A Tale of Two Narratives. Viking, 2016

ADWAN, Sami & Peace Research Institute in the Middle East – Side by Side: Parallel Histories of Israel-Palestine, The New Press, 2012

Histórico do conflito e análise atual das ações do governo Trump – site da CNN

BBC – Israel profile timeline

Publicado em 18 de setembro de 2018.
Paulo Gorniak
Tradutor, roteirista e redator publicitário. Escreve muito e lê mais ainda. Acredita que quanto mais você aprende, mais percebe que há muito a aprender.