Eleições na Argentina: o que está em jogo?

Bandeira da Argentina (Foto: Eduardo Amorim/Visual Hunt)

Bandeira da Argentina (Foto: Eduardo Amorim/Visual Hunt)

Você tem acompanhado as eleições na Argentina? A importância do país vai muito além da tradicional rivalidade futebolística com o Brasil ou da disputa histórica pela hegemonia na América do Sul. A Argentina possui o segundo maior PIB da América do Sul e é o terceiro maior parceiro comercial brasileiro, atrás apenas de China e Estados Unidos. O país também é peça fundamental no Mercosul e em acordos firmados pelo bloco, como o Acordo Mercosul-União Europeia. A Argentina, inclusive, recebeu recentemente a indicação dos Estados Unidos para fazer parte da OCDE, que também é buscada pelo Brasil.

Com eleições presidenciais em 2019, o projeto político argentino está em jogo. Nesse texto, o Politize! traz os principais candidatos e suas propostas para a eleição Argentina e como essa eleição tem repercutido no Brasil. Vem com a gente!

O contexto das eleições argentinas

Antes de mais nada, é importante entendermos o contexto no qual estas eleições estão acontecendo. Conforme trouxemos no texto sobre a Crise na Argentina, o país vem, desde a década de 1990, enfrentando uma série de instabilidades econômicas que envolveram desvalorizações monetárias, inflação crescente, pedidos de ajuda ao Fundo Monetário Internacional (FMI) e decretações de moratórias (atrasos ou suspensões de pagamentos de dívidas).

Saiba mais sobre inflação: você entende o que ela significa?

Recentemente, a situação não tem sido muito diferente. Em 2018, a Argentina registrou a inflação mais alta em 27 anos. O peso argentino (moeda oficial da Argentina) continua passando por momentos de desvalorização frente ao dólar e, em 2019, apresentou a maior desvalorização desde 2015. Em 28 de agosto de 2019, por sua vez, o país decretou uma nova moratória, a oitava de sua história, pedindo a renegociação de sua dívida com o FMI. Nesse contexto, as pautas econômicas ganham destaque na corrida presidencial.

Saiba mais sobre a Crise na Argentina: o que está acontecendo com a economia do país?

As eleições primárias na Argentina

No modelo de eleição argentino, antes da eleição presidencial propriamente dita, são realizadas eleições primárias, chamadas de Primárias Abertas, Simultâneas e Obrigatórias (PASO). Essas eleições primárias funcionam como uma “filtragem” de chapas eleitorais. Apenas aqueles candidatos que recebem ao menos 1,5% dos votos da população argentina podem, de fato, disputar a eleição.

As primárias funcionam também como uma espécie de prévia ou pesquisa de intenções de voto da forma mais prática possível, pois refletem como a população argentina pretende votar um mês e meio antes da eleição “oficial”. Com isso, os candidatos mais votados se fortalecem e os menos votados têm tempo de adaptar suas estratégias eleitorais até a eleição.

O resultado também afeta o comportamento dos investidores na Argentina, que podem aumentar ou diminuir investimentos com base em suas expectativas em relação aos candidatos mais votados. Isso também pode influenciar as eleições e ser usado em discursos entre os candidatos.

Os resultados das primárias 

As primárias na Argentina aconteceram no dia 11 de agosto de 2019 e definiram 6 candidatos para as eleições presidenciais:

Os dois candidatos mais votados foram Alberto Fernández (47,66% dos votos) e Maurício Macri (32,08%). Ao que tudo indica, eles são os favoritos na eleição. Que tal conhecer um pouco mais sobre eles?

Vale lembrar que, na Argentina, quando um candidato obtém mais de 45% dos votos, não há segundo turno.

Alberto Fernández

Alberto Fernandez e Cristina Kirchner (Fotos Públicas)

Alberto Fernández é o candidato do peronismo. Bandeira forte na Argentina, o peronismo tem origem na figura de Juan Domingo Perón, um militar e político que exerceu a presidência da argentina por três vezes no século XX (1946 – 1952, 1952 – 1955 e 1973 – 1974), mas continua significativo mesmo depois de sua morte em 1974.

O peronismo é quase uma constante na política argentina e se classifica mais como um movimento do que como uma corrente política de esquerda ou de direita. Ou seja, podem existir peronistas de todas as posições políticas. Geralmente esses líderes são personalidades de liderança forte e carismática. Na visão do historiador e professor da Universidade de Buenos Aires, Luis Alberto Romero, em relação ao peronismo:

“Não existe uma ideia ou sequer um sentimento […] O que existe é um espaço comum, mais cultural que político, no qual propostas e lideranças compartilham valores, linguagens, slogans […] que facilitam uma articulação. Esse espaço comum é o peronismo”. (Notimérica)

Voltando ao candidato deste ano, Fernández tem longa trajetória política, tendo passagens pelo Ministério da Economia, pela Superintendências de Seguros da Nação e foi Chefe de Gabinete de Néstor Kirchner (presidente entre 2003 e 2007) e, posteriormente, de Cristina Kirchner (presidente de 2007 até 2015) entre 2003 e 2008. De lá pra cá, acabou se tornando um crítico do Kirchnerismo, até que, em 2019, uniu forças com Cristina Kirchner, que se tornou a vice-presidente na chapa de Fernández.

Entre as propostas de Fernández, estão:

  • Economia: o crescimento econômico, focado no fortalecimento do mercado interno e no cuidado com setores mais vulneráveis; a recuperação da indústria nacional, aumentando as exportações e realizando uma substituição de importações (produzindo localmente o que antes se importava); a busca pela geração das divisas estrangeiras para tornar o país mais seguro em relação às dívidas com o FMI; rever os prazos dos pagamentos dos empréstimos ao FMI; rever a política cambial de Macri, mas sem adotar o modelo de câmbio fixo dos governos de Cristina Kirchner; não realizar uma reforma trabalhista.
  • Desenvolvimento Social: defende o Projeto Argentina Contra a Fome, que tem como objetivo solucionar o problema da alimentação na Argentina, entre outras coisas, com eliminação de impostos sobre os produtos da certa básica.
  • Segurança: reestruturar o Ministério da Segurança, com a criação do Observatório de Segurança Pública, com o objetivo de medir o desempenho de todas as instituições de segurança da Argentina e atuar sobre os problemas detectados.
  • Educação: reestruturar a educação pública, que, segundo ele, vem sofrendo cortes de orçamento que alcançam os 30% durante o governo Macri.

Maurício Macri

Maurício Macri (Fotos Públicas)

Presidente da Argentina desde 2015, Maurício Macri busca a reeleição. Ele é uma grande figura pública na Argentina, já tendo sido presidente do Boca Júniors (um dos clubes de futebol mais importantes do país) e um empresário de sucesso. Durante seu governo, no entanto, enfrentou uma série de problemas econômicos que afetaram sua popularidade.

O governo de Macri é visto como tendo possuído caráter liberal, apesar de alguns questionamentos sobre até que ponto foi fiel ao liberalismo. Entre suas propostas para essas eleições, estão:

  • Economia: transformar a Argentina em uma potência exportadora, com o financiamento, por parte do Estado, da primeira exportação realizada por pequenas e médias empresas, desde que esta não supere os 100 kg; isenção de impostos para exportações vinculadas à agropecuária até 2021; manutenção do modelo de abertura cambial que lançou em 2015; a continuidade nos ajustes de contas por parte do governo (austeridade) e em suas medidas de desregulamentação do mercado; reforma em leis trabalhistas, para modernizar o mercado de trabalho.
  • Desenvolvimento social: estender as redes de fibra ótica na Argentina com o objetivo de levar “internet para todos” e, com isso, gerar mais oportunidades aos jovens.
  • Educação: oferecer uma série de oficinas educacionais para jovens de 15 a 18 anos que vivam em zonas vulneráveis do país, com o objetivo de fornecer mais oportunidades e evitar que “um milhão de jovens” permaneçam sem estudar ou trabalhar no país, segundo Macri.
  • Segurança: combater à venda de drogas, expandindo o programa que já aplicou em algumas regiões do país e, segundo ele, neutralizou 74% dos bunkers relacionados à venda de drogas nessas localidades.

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A repercussão das eleições na Argentina no Brasil

O atual governo brasileiro, do presidente Jair Bolsonaro, demonstrou apoio ao candidato Maurício Macri e chegou a declarar que uma vitória da chapa Fernández – Cristina pode ser um risco ao Mercosul. Em relação à questões econômicas, Bolsonaro afirmou que, no caso de uma mudança da postura comercial Argentina, pode tentar isolar o país no âmbito do Mercosul.

“O que nós queremos é que a Argentina continue, na questão comercial, caso a oposição vença, da mesma forma que o Macri. Do contrário, nós podemos nos reunir com Uruguai e Paraguai e tomar uma decisão.”

Caso aconteçam, os resultados do segundo turno na Argentina sairão no dia 27 de novembro. Caso não haja segundo turno, conheceremos o presidente no dia 27 de outubro. Independente de quais forem os resultados, afetam não só os rumos argentinos, mas também os brasileiros e os sul-americanos.

Conseguiu entender melhor sobre as eleições na Argentina? O que você pensa sobre o assunto?

Publicado em 24 de outubro de 2019.

 

Danniel Figueiredo

Assessor de conteúdo do Politize! Graduando em Relações Internacionais pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Apaixonado por política internacional e pelo ideal de tornar a educação política cada vez mais presente no cotidiano brasileiro.

 

Referências:

Valor Econômico (Bolsonaro sobre a eleição) – France24 (Argentina: ¿quiénes son los seis candidatos a la presidencia?) – RT (Las propuestas de los candidatos) – Nexo (O Estado do liberalismo de Macri) – Notimérica (Sobre o peronismo) – Folha (Bolsonaro pede apoio a Macri) – Gazeta do Povo (O governo de Macri adotou o liberalismo?)

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