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Roberto Campos: herege ou profeta?

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Roberto de Oliveira Campos, nasceu em Cuiabá, Mato Grosso, no dia 17 de Abril de 1917. Foi economista, diplomata e professor, além de exercer diversos cargos públicos. Foi eleito senador por Mato Grosso, pelo PDS, por oito anos (1983-1991), e deputado federal pelo Rio de Janeiro por duas legislaturas (1991-1999).

Roberto Campos foi uma figura importante para o Brasil. Atuou em várias frentes e foi precursor do liberalismo no país
Roberto Campos. Imagem: reprodução Jornal Opção

Exerceu os cargos de Embaixador do Brasil em Washington no governo João Goulart e em Londres no governo Ernesto Geisel. Como diplomata conviveu com diversas autoridades como: Margareth Thatcher, Castelo Branco, Juscelino Kubitschek, João Goulart, Jânio Quadros e John Kennedy, convivência que ele relata no livro “A Lanterna na Popa”.

Roberto Campos tem um currículo extenso, com consideráveis contribuições a nível nacional e internacional. E é isso que vamos descobrir agora.

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A vida acadêmica de Roberto Campos

Roberto Campos se formou em Filosofia no ano de 1934 e em Teologia em 1937, nos Seminários Católicos de Guaxupé, em Belo Horizonte. Ingressou no Serviço Diplomático Brasileiro em 1939. Fez pós-graduação em Economia pela Universidade George Washington, pós-graduação na Universidade de Columbia de Nova York, onde também iniciou um doutorado o qual não chegou a concluir. Foi professor das cadeiras de Moeda e Crédito e Conjuntura Econômica da Faculdade de Economia, Universidade do Brasil de 1956 a 1961.

Campos foi Doutor Honoris Causa pela Universidade de Nova York, em 1958; Doutor Honoris Causa pela Universidade Francisco Marroquim, Guatemala em 1996. Também foi defensor incondicional das liberdades democráticas e da livre iniciativa, além de fezer palestras e conferências, escreveu livros e artigos, sobre o tema. Obras que o motivaram a se candidatar a uma cadeira na ABL (Academia Brasileira de Letras).

Leia também: FMI e Brasil: como é a relação com o Fundo Monetário Internacional?

O diplomata e embaixador

Roberto Campos ingressou no Serviço Diplomático Brasileiro em 1939, através de um concurso, e foi nomeado para trabalhar na embaixada brasileira em Washington. No pós-guerra, Campos fez parte da comitiva brasileira convidada pelo então Presidente Americano Franklin D.Roosevelt, para o encontro de Bretton Woods, que criou o Banco Mundial e FMI (Fundo Monetário Internacional). E ainda negociou os créditos internacionais do Brasil, como o financiamento da Companhia Siderúrgica Nacional, em Volta Redonda.

Cargos exercidos como diplomata:

  • Conselheiro econômico da Comissão de Desenvolvimento Econômico Brasil-Estados Unidos (1951-1953);
  • Diretor, gerente geral e presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico (1952 /1955 /1959);
  • Secretário-geral do Conselho de Desenvolvimento Econômico (1956-1959);
  • Coordenou ações econômicas do Plano de Metas do Governo Juscelino Kubitschek.

Cargos exercidos como Embaixador:

  • Embaixador itinerante para negociações financeiras na Europa Ocidental (1961);
  • Delegado a conferências internacionais, inclusive Ecosoc e Gatt (1959-1961);
  • Embaixador do Brasil nos Estados Unidos (1961);
  • Embaixador do Brasil na Corte de Saint James (1975-1982).

Campos ainda foi Ministro de Estado para o Planejamento e Coordenação Econômica no governo militar de Castelo Branco. Nesse período criou o Fundo de Garantia por Tempo de Serviço, o FGTS, a Caderneta de Poupança, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e o Estatuto da Terra. Representando o Brasil, foi membro do Comitê Interamericano da Aliança para o Progresso, Equador e Haiti de 1964 a 1967, além de presidente da a Cicy (Conselho Interamericano de Comércio e Produção), de 1968 a 1970.

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O polêmico Parlamentar

Roberto Campos era uma figura política
O político Roberto Campos. Imagem: Câmara dos Deputados.

Na vida partidária, Roberto Campos foi senador da república, representando o Estado de Mato Grosso, de 1983 a 1990, e deputado federal pelo PPB do Estado do Rio de Janeiro, em duas legislaturas, de 1990 a 1998. O que mais chamava atenção eram suas declarações consideradas polêmicas. Vamos conhecer algumas das frases mais lembradas de Roberto Campos:

“Sou chamado a responder rotineiramente a duas perguntas. A primeira é ‘haverá saída para o Brasil?’. A segunda é ‘o que fazer?’. Respondo àquela dizendo que há três saídas: o aeroporto do Galeão, o de Cumbica e o liberalismo. A resposta à segunda pergunta é aprendermos de recentes experiências alheias”;

“As reformas não conseguirão piorar nosso manicômio fiscal. Mas, como dizia um engraxate da Câmara, não há perigo de melhorar.” – ao falar sobre o projeto de reforma fiscal em tramitação no Congresso Nacional, em dezembro de 1999;

“O bem que o Estado pode fazer é limitado; o mal, infinito. O que ele pode nos dar é sempre menos do que nos pode tirar”

“Nossa Constituição é uma mistura de dicionário de utopias e regulamentação minuciosa do efêmero”;

“Estamos ainda longe demais da riqueza atingível, e perto demais da pobreza corrigível. Minha geração falhou”;

“A mágica agora é o denuncismo do ‘pega corrupto’. Esquecemos as razões profundas da corrupção, a falência múltipla do Estado, obsoleto, corporativo, ocupado por interesses espúrios, cuja ineficiência tem por maiores vítimas, os pobres e indefesos”;

A Constituição contra o Brasil

Campos, como parlamentar, combateu a Constituição de 1988, pois a julgava desnecessária, por isso gerou uma das conversas mais irônicas com o senador Edison Lobão (PMDB-MA), seu colega na Constituinte.

‘Olha Lobão, hoje eu fiquei feliz porque a Constituinte aprovou uma emenda que me beneficia diretamente. Eu sempre tive muito medo de morrer e com essa emenda aprovada aqui eu não vou morrer nunca mais’. Eu disse:’Como assim?’ E ele respondeu: ‘Está dito lá que todos os brasileiros têm direito à vida’, relatou Lobão.

Após seu mandato de senador e dois mandatos de deputado federal, Campos deixou a vida partidária decepcionado, sem projetos de sua autoria aprovado e com a singela afirmação:

“Quando cheguei ao Congresso, queria fazer o bem. Hoje acho que o que dá para fazer é evitar o mal”, afirmou Roberto Campos

Roberto Campos é retratado pelo professor Antônio José Barbosa não como homem de direita, ortodoxo, enclausurado na conjuntura, mas um homem prático e racional. No seu texto, ele também destaca a “clarividência” de Campos, o que lhe gerou o título de profeta anos após ser considerado herege, por ser um liberal.

“Problemas que estão na ordem do dia da agenda política brasileira em 2017 como as reformas tributária, previdenciária e trabalhista, tudo isso foi alertado por Roberto Campos lá nos anos 80 na tribuna do Senado”, disse o Professor Antônio José Barbosa

O “imortal” da Academia Brasileira de Letras

A eleição de Roberto Campos em 1999 para a academia brasileira de letras foi bastante conturbada. Ele sucedeu o dramaturgo Dias Gomes, de espectro político de esquerda, e o nome de Campos desagradou muitos imortais por ele ser um liberal convicto, visto como um “herege” por tais crenças. Com uma votação bem apertada, foi eleito um imortal em setembro do mesmo ano, o sétimo ocupante da Cadeira 21.

Após observar toda a situação ocasionada por aquela eleição, polemista como sempre foi, Campos não poupou palavras para expressar sua reprovação ao cenário criado, o que classificou como “uma ridícula batalha ideológica que, magnificada pela mídia, me transformaria numa ameaça à paz e a elegância deste cenáculo”.

Após a morte de Roberto Campos, Paulo Coelho se tornou o oitavo ocupante da Cadeira nº 21 da ABL.

Publicações de Roberto Campos

Roberto Campos publicou muitos trabalhos, artigos, relatórios sobre desenvolvimento e economia internacional, que foram publicados em várias revistas e jornais, além de vários livros. livros publicados foram:

  • Economia, Planejamento e Nacionalismo (1963);
  • Ensaios de História Econômica e Sociologia (1964);
  • A Moeda, o Governo e o Tempo (1964);
  • Política Econômica e Mitos Políticos (1965);
  • A Técnica e o Riso (1967);
  • Reflections on Latin American Development (1967);
  • Do Outro Lado da Cerca (1968);
  • Ensaios Contra a Maré (1969);
  • Temas e Sistemas (1970);
  • Função da Empresa Privada (1971);
  • O Mundo que Vejo e não Desejo (1976);
  • Além do cotidiano (1985);
  • Ensaios Imprudentes (1987);
  • Guia para os Perplexos (1988);
  • O Século Esquisito (1990);
  • Reflexões do Crepúsculo (1991);
  • A Lanterna na Popa – Memórias (1994);
  • Antologia do Bom Senso (1996);
  • Na virada do Milênio (1998).

Como co-autor com Mário Henrique Simonsen:

  • A Nova Economia Brasileira (1974);
  • Formas Criativas no Desenvolvimento Brasileiro (1975).

Muitos escritores publicaram livros a respeito do pensamento de Roberto Campos, entre eles:

  • A Constituição contra o Brasil: Ensaios de Roberto Campos sobre a Constituinte e a Constituição de 1988, por Paulo Roberto de Almeida;
  • Lanterna na proa- Roberto Campos 100 anos, por Ives Gandra e Paulo Roberto de Almeida;
  • Ok, Roberto. você venceu!:O pensamento econômico de Roberto Campos, por Ernesto Lozardo;
  • O Pensamento Político de Roberto Campos por Reginaldo T. Perez;
  • O homem que pensou o Brasil, por Paulo Roberto de Almeida.

Do Keynesianismo ao liberalismo

Os que conhecem o legado de Roberto Campos, sabem que ele foi um liberal nato, defensor ferrenho do liberalismo econômico. Entretanto, no início de sua carreira era defensor do keynesianismo, teoria econimica fundamentada nas ideias do economista John Maynard Keynes, que acreditava na intervenção do Estado como o melhor caminho para o desenvolvimento. Mas acabou sendo muito influenciado pelo economista Friedrich von Hayek e tomou gosto pelas ideias liberais.

Fase keynesiana

A mentalidade do keynesianismo origina-se que o papel do governo é estimular a economia. Roberto Campos era simpatizante dessa ideia, tanto que participou da criação de diversas estatais, como BNDES, Petrobras e Eletrobrás. Mas o intusiasmo de Campos pelas medidas econômicas de John Keynes logo se converteu ao liberalismo, ao ler as obras de Hayek.

Fase liberal

Boa parte da influência liberal de Campos veio do economista Friedrich Hayek (1899-1992), ligado à chamada Escola Austríaca, ultraliberal, que era defensor do Estado mínimo. O ex-ministro da Fazenda, do Planejamento e da Agricultura, economista e consultor, Antônio Delfim Netto, conta um episódio ocorrido que mostra o quão Hayek influenciou Campos:

“Um dia, na Câmara, sem nenhuma razão, ele me disse: Delfim, perdi muito tempo. Só deveria ter lido Hayek.”

Roberto Campos, ao ler as obras do autor, se convenceu que o Estado como administrador de empresas pesaria no bolso do cidadão, além de atrasar o desenvolvimento do país. Em sua nova visão, para o Estado prosperar, essa função deveria ficar a cargo da iniciativa privada. Desta forma, o cidadão teria liberdade para trabalhar e empreender.

A “conversão” de Campos ao liberalismo foi tão definitiva, que se tornou o mais ferrenho defensor das privatizações e a liberdade econômica. Chegou a apelidar a Petrobras de ‘Petrossauro’ por sua sistemática ineficiência. Sua crítica previa que o monopólio dessas estatais faria do Brasil o único país importador que compraria petróleo fora, ao invés de receber capitais para produzi-lo internamente.

Por conta desta questão da Petrobras, criou a frase: “a diferença entre a empresa privada e a pública é que aquela é controlada pelo governo e esta, por ninguém.” Por defender as privatizações, passou a ser chamado pelos adversários de “entreguista” e também foi apelidado de Bob Fields, que era seu nome traduzido para o inglês (fazendo alusão à ideia de que ele queria beneficiar empresas estrangeiras).

Veja também nosso vídeo sobre neoliberalismo!

O controverso Roberto Campos: herege ou profeta?

Roberto Campos exerceu vários outros cargos em conselhos e entidades públicas e privadas. Também foi presidente do COMUDES (Conselho Municipal de Desenvolvimento), na Cidade do Rio de Janeiro em 1999 e membro do BNDES (Conselho de Administração do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) em 1999.

Morreu aos 84 anos, em sua casa, em Copacabana, na zona sul do Rio de Janeiro, de infarto agudo do miocárdio, e teve seu corpo velado no salão dos Poetas Românticos da ABL (Academia Brasileira de Letras), e enterrado no mausoléu do cemitério São João Batista, em Botafogo, na zona sul do Rio.

Ele morreu em 2001, e alguns economistas, entre eles Armínio Fraga, ex-presidente do Banco Central, passaram a ressaltar que ele não viveu para ver a profunda crise que atingiu a economia do país, que segundo eles, foi agravada por causa de políticas estatistas unidas a mutiplicação dos escândalos de corrupção em empresas estatais ocorrida nos anos seguintes, como Campos previu.

Segundo o economista Armínio Fraga, o aniversário de 100 anos de Roberto Campos deveria servir para resgatar as suas ideias de diminuição do Estado na economia.

“O Roberto Campos estaria repetindo o que disse a vida inteira, que o Brasil andou para trás. Hoje, há uma janela de oportunidade para consertar esse modelo que não deu certo.” afirmou Fraga.

As contribuições de Roberto Campos para o Brasil são inegáveis, e mesmo com todos os trabalhos realizados, principalmente em relação à economia, ainda em vida, ele era apontado por alguns como herege. Mas depois de vários anos, uma grande parcela de economistas passaram a enxergar Roberto Campos como um profeta, um visionário que enxergou a frente do seu tempo, e alguém que pensou o Brasil.

E você, depois de ler o texto, acredita que Roberto Campos foi herege ou profeta? deixa aí nos comentários.

Referências

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1 comentário em “Roberto Campos: herege ou profeta?”

  1. Francisco Eduardo Almada Prado

    Roberto Campos foi um político muito culto e inteligente, que fez muito pelo Brasil , na sua fase Keynesiana .
    O Liberalismo econômico, que a princípio se julgava uma idéia progressista , provou-se uma desorganização planejada pelos interesse externos , que abriu as portas para comprarem o Brasil e desestruturarem nossa Soberania, que os governos militares zelavam .
    O Arminio Fraga foi braço direito do financista judeu George Soros , “filantropo” da Open Society Foundation , que predou vários países da Ásia e quase quebrou o Banco da Inglaterra .
    Todos muito inteligentes, mas mostraram na prática para o mundo , quão destrutiva foi essa doutrina . E ainda é !

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Conteúdo escrito por:
Pernambucana residente na Paraíba, Cientista Política e Estudante de Relações Internacionais. Administradora do Perfil Conservadorismo em foco. Apaixonada pela Política.

Roberto Campos: herege ou profeta?

17 jun. 2024

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