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Educação dos surdos: escola inclusiva ou bilíngue?

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Parte do alfabeto na Língua Brasileira de Sinais. Imagem: Divulgação / Associação de Tradutores Intérpretes de Língua de Sinais do Oeste do Pará.

A educação dos surdos é uma questão de extrema relevância para a comunidade surda do país, bem como para a população brasileira no geral – motivo pelo qual o tema de redação do ENEM em 2017 foi “Desafios para a formação educacional de surdos no Brasil”, que proporcionou visibilidade nacional para a questão e para a comunidade surda.

Você, que talvez seja ouvinte e falante de português brasileiro, sabia que o país conta com uma população surda em todo o território nacional?

A língua da maioria dos surdos brasileiros é a libras (abreviação de língua brasileira de sinais), cuja modalidade é visual-espacial, diferentemente do português brasileiro, que é oral-auditiva. E atenção: a libras NÃO é uma versão visual ou simplificada do português brasileiro – são duas línguas diferentes!

Por meio da libras, os surdos se comunicam com o corpo, as mãos, as expressões faciais, o espaço e a visão. Com a libras, os surdos se comunicam entre si e se expressam criativamente como qualquer pessoa no mundo.

Mas neste texto nós não vamos tratar estritamente dos aspectos linguísticos da libras, e sim de como é a educação escolar dos surdos na sociedade brasileira. Vamos lá?!

Veja também: Diversidade e inclusão no mercado de trabalho: caminhos possíveis.

A educação dos surdos

Para que você possa ser introduzido na questão da educação dos surdos no Brasil, nós a dividimos didaticamente em três partes:

  1. fundação das primeiras instituições escolares para surdos no país;
  2. perspectivas: clínico-terapêutica e socioantropológica;
  3. métodos de educação: oralismo, comunicação total e bilinguismo.

Vem com a gente! 😉

Veja também nosso vídeo sobre educação e cultura!

1 – As primeiras instituições escolares para surdos no Brasil

A educação dos surdos no Brasil tem como marco inicial a fundação do INES (Instituto Nacional de Educação de Surdos), no Rio de Janeiro, em 1857, por Dom Pedro II e Padre Huet. Esse instituto funcionava em regime de internato e só aceitava meninos surdos, vindos de todo o país. Nessa época, o INES se chamava Instituto Imperial de Surdos-Mudos.

Cabe destacar que a designação “surdo-mudo” não é mais aceita, em razão de, atualmente, ser de conhecimento geral que não há uma relação necessária entre ser surdo e ser mudo, isto é, na maioria das vezes, o surdo não tem seu aparelho fonador comprometido, portanto, nenhum fator fisiológico o impede de aprender a oralizar.

Outra instituição escolar de relevância é o Instituto Santa Teresinha, fundado em São Paulo, em 1929. Ele também funcionava em regime de internato, e só aceitava meninas surdas. No presente, nenhum dos dois institutos atendem em regime de internato, como também aceitam igualmente meninos e meninas surdos.

Veja mais: Educação Brasileira: realidade e desafios

2 – As perspectivas clínico-terapêutica e socioantropológica

Para a compreensão da surdez predominam duas perspectivas, embora não sejam necessariamente opostas, e sim podendo haver um trânsito entre elas.

Perspectiva clínico-terapêutica

A perspectiva clínico-terapêutica “pensa a surdez de modo vinculado à patologia e ao déficit auditivo, embasando propostas de correção do déficit. Nessa concepção, o desenvolvimento e a linguagem só são possíveis por meio da língua oral” (Sylvia Nunes e outros, 2015, p. 540).

Nessa perspectiva, ancorada no discurso médico, enfatiza-se o aspecto fisiológico e a falta de audição. Assim, o surdo é tomado – pela sociedade majoritariamente ouvinte – como uma pessoa com deficiência, e é chamado de deficiente auditivo.

A surdez, desse modo, é considerada algo passível de tratamento por médicos, especialmente fonoaudiólogos, com o apoio de terapias, aparelhos auditivos ou implante coclear.

Veja também nosso vídeo sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência!

Perspectiva socioantropológica

A outra perspectiva é a socioantropológica, ancorada no discurso da diversidade, para qual se enfatiza os aspectos culturais da surdez, sobretudo a diferença linguística.

Desse modo, reconhece-se as “características culturais que marcam seu jeito [dos surdos] de ver, sentir e se relacionar com o mundo” (Audrei Gresser, 2020, Local 785/1670 Kindle), levando-se em conta que a cultura dos surdos é visual.

3 – Métodos de educação: oralismo, comunicação total e bilinguismo

Oralismo

O oralismo é um método de educação que foi instituído oficialmente em um evento de extrema relevância na história da educação dos surdos, conhecido por Congresso de Milão.

Esse congresso, que aconteceu entre 6 e 11 de setembro de 1880 em Milão, Itália, reuniu educadores de surdos da Europa para discutirem qual das duas tendências de ensino da época – gestualismo versus oralismo – seria a melhor para empregar na educação, tendo sido o oralismo a tendência adotada pelos educadores ouvintes daí em diante.

A proposta do oralismo era desenvolver a língua oral nos estudantes surdos, rejeitando (ou mesmo proibindo) o uso de línguas de sinais. Segundo a pesquisadora Karin Strobel (2006, p. 249),

Durante cem anos [após o Congresso de Milão], os sujeitos surdos ficaram subjugados às práticas ouvintistas, tendo que abandonar sua cultura e sua identidade surda, obrigados a se submeterem a uma ‘etnocentria ouvintista’, sendo forçados a imitá-los e a se esforçarem em parecer ouvintes. A educação de surdos no Brasil foi influenciada pelas metodologias que surgiram nos séculos XVI a XIX.

Comunicação total

A comunicação total (ou bimodalismo), por sua vez, é um método que começou a surgir nos anos 1970-80 e que concilia o gestualismo e o oralismo daquela época, pois com ele se emprega simultaneamente uma língua oral e uma língua de sinais no ensino de surdos.

Dessa maneira, as línguas de sinais passaram a ser reconhecidas como meio de comunicação, porém aponta-se que, ainda assim, elas são usadas como suporte para aprender a falar uma língua oral.

Além disso, ao se utilizar as duas línguas ao mesmo tempo, confunde-se a estrutura das línguas entre si, resultando em um código que não é propriamente nem a língua de sinais, nem a língua oral.

Bilinguismo

Por fim, o bilinguismo é o método de educação que reconhece a língua de sinais dos surdos como língua natural (ou seja: espontânea, estruturalmente complexa e suficiente) e perfeitamente apropriada para servir de meio para educar os surdos. Com isso, dispensa-se a meta de oralizar os surdos.

Assim, esse método tem por objetivo desenvolver as habilidades dos surdos em sua primeira língua (a língua de sinais) e em uma segunda língua (a língua oral majoritária), na modalidade escrita.

Desse modo, os surdos teriam melhores condições para se desenvolverem em todos os aspectos e por meio de sua própria língua.

Ufa! Tendo percorrido esse trajeto até aqui, agora estamos prontos para entender a diferença entre as propostas pedagógicas escola inclusiva e escola bilíngue.

Veja mais: Neurodiversidade: qual sua contribuição para o tema da inclusão

A escola inclusiva

A proposta da escola inclusiva busca incluir os alunos surdos em escolas regulares – cujos alunos e professores são majoritariamente ouvintes -, o que permitiria, em tese, o convívio de surdos e ouvintes no mesmo espaço escolar.

Tal modelo aproxima-se da perspectiva clínico-terapêutica, pois reconhece o surdo como uma pessoa com deficiência que precisa ser inserida na sociedade.

Contudo, muitos surdos reclamam dessa proposta (confira os vídeos e textos nas referências ao final), alegando que, na escola regular em que são inseridos, geralmente se sentem sozinhos e desestimulados, por serem os únicos no espaço escolar que se comunicam em libras e que partilham de sua cultura, impossibilitando a inclusão pretendida.

A escola bilíngue

Por outro lado, a proposta da escola bilíngue parece ser a mais defendida pela comunidade surda.

Esse modelo de educação dos surdos está estabelecido no Brasil, como aponta a pesquisadora e linguista Ronice Quadros (2020, Local 2379/3283 Kindle) “pela Lei de Libras 10.436/2002, pelo Decreto 5.626/2005, pela Convenção dos Direitos das Pessoas com Deficiência (2007, 2011) e pelo Plano Nacional de Educação (2014-2024)”.

Segundo Ronice Quadros, “a educação bilíngue legitima a surdez como experiência visual e reconhece a língua de sinais como a primeira língua da criança surda”, aproximando tal modelo de escola da perspectiva socioantropológica.

Na prática, tratam-se de escolas planejadas para os surdos, em que os mesmos conseguem estabelecer interação direta (sem um intérprete) com colegas e professores também surdos ou que se comunicam em libras, e que partilham da mesma cultura, tendo no ensino e na convivência a libras e o português brasileiro como segunda língua, na modalidade escrita.

Já existem algumas escolas bilíngues espalhadas pelo Brasil.

Chegamos ao fim!

Você entendeu a complexidade e importância da questão sobre a educação dos surdos? Conseguiu perceber que se trata de uma questão não só para a comunidade surda, mas para todos nós brasileiros discutirmos? E qual modelo de escola você achou mais adequada e por que: escola inclusiva ou escola bilíngue?

Nossa intenção foi apenas introduzir a questão. Visite o material nas referências abaixo e compartilhe com a gente suas impressões nos comentários!

Referências:

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1 comentário em “Educação dos surdos: escola inclusiva ou bilíngue?”

  1. Bom dia! Tudo bem? Meu nome é Fernando…
    …trabalho com teatro e no próximo sábado, as 15h30, realizaremos um espetáculo infanto juvenil com Interprete de Libras no Clube Helvetia (Planalto Paulista). Tenho algumas cadeiras livres. Vocês acham que conseguem levar alguns surdos? Grato.

    Qualquer coisa, entre em contato – 11 98183-5535

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Conteúdo escrito por:
Um híbrido confuso de alagoano e paulista (ora osasquense, ora sancarlense). Aspirante a linguista e futuro pesquisador. Cursando Linguística na UFSCar. Acredita que uma educação política mais rica deve fomentar discussões sobre a linguagem.

Educação dos surdos: escola inclusiva ou bilíngue?

19 jul. 2024

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