6 MOMENTOS QUE MARCARAM OUTUBRO DE 2018

Em outubro de 2018 aconteceram as tão esperadas eleições. Os brasileiros escolheram representantes estaduais e federais, na esfera do Legislativo e do Executivo, incluindo representante para o cargo de Presidente da República. Como as Eleições de 2018 movimentaram intensamente o mês de outubro, esta retrospectiva traçará uma linha com os principais acontecimentos que antecederam a eleição de Jair Bolsonaro (PSL) para a presidência. Vamos lá?

1. DELAÇÃO DE PALOCCI ÀS VÉSPERAS DO PRIMEIRO TURNO

Antônio Palocci (Foto: Wikimedia),

outubro de 2018

No dia 1º de outubro de 2018, a menos de uma semana para o primeiro turno das eleições, o juiz Sérgio Moro tornou pública parte da delação premiada de Antonio Palocci. Ele foi ministro da Fazenda de Luiz Inácio “Lula” da Silva e também ministro da Casa Civil de Dilma Rousseff. A delação de Palocci continha as seguintes informações:

  • As campanhas de 2010 e 2014 de Dilma Rousseff teriam custado até quatro vezes mais do que o valor declarado à Justiça Eleitoral. Segundo Palocci, a campanha de 2010 teria custado R$ 600 milhões – não R$ 153 milhões, como declarado – e a de 2014 chegara aos R$ 800 milhões – enquanto o declarado fora de R$ 350 milhões.
  • Teriam sido desviados 3% do valor de todos os contratos de publicidade da Petrobrás. Esse dinheiro teria sido usado no pagamento de propina.
  • Cerca de 90% das medidas provisórias alteradas nos governos de Lula e Dilma teriam sido conseguidas por meio de propina.
  • O ex-presidente Lula sabia do esquema de corrupção na Petrobrás desde fevereiro de 2007.

Antonio Palocci foi condenado a 12 anos de prisão por corrupção e lavagem de dinheiro e desde 2017 negocia sua delação premiada com o Ministério Público Federal. Em abril de 2018, Palocci entregou seu primeiro conteúdo às autoridades, que foi negado por falta de provas. As negociações continuaram e, em junho de 2018, o Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF-4) aprovou o acordo.

Além de negar as acusações feitas na delação premiada e afirmar que Palocci não apresenta provas, a defesa do ex-presidente Lula levantou um questionamento: por que tornar as declarações públicas a um mês do primeiro turno? Para o PT, Moro teria agido por motivação eleitoral, pois divulgar a delação naquele momento prejudicaria o candidato à presidência pelo PT, Fernando Haddad. O juiz, por sua vez, respondeu que retirou o sigilo das declarações por entender que tal ato não prejudicaria o andamento das investigações.

Sobre a polêmica, o Jornal Nexo entrevistou dois cientistas políticos. Questionado sobre a razão de Moro ter tornado a delação pública tão perto do primeiro turno, Felipe Borba – professor da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio) – afirmou que a motivação era atrapalhar a campanha do adversário de Bolsonaro, Fernando Haddad . Borba também disse que, ao quebrar o sigilo da delação naquele momento, Moro parecia “querer criar um fato que contivesse essa tendência positiva da campanha de Haddad e freasse a tendência negativa de Bolsonaro. Liberar uma informação dessa às vésperas do primeiro turno pode ter uma razão jurídica, mas tem uma coincidência política muito grande”. Uma reportagem da Folha explicou que a “desconfiança” em relação à atitude de Moro se deve pelo fato de o juiz ter tido acesso à delação já em junho e ter decidido divulgá-la apenas três meses depois.

Já Leon Victor de Queiroz – professor da Universidade Federal de Campina Grande (UFCG) – entende duas motivações possíveis para a ação de Moro. A primeira concordaria com o afirmado por Borba sobre a intenção do juiz de prejudicar a campanha de Haddad. Já a segunda visão criava um questionamento: “e se Moro não levantasse o sigilo em função da campanha eleitoral? Não teríamos uma espécie de limbo ou de um período de imunidade em que não se fala nada sobre os processos envolvendo políticos?”.

Sobre o impacto da delação nas eleições, Borba afirmou que as informações divulgadas não se diferem muito das outras acusações de corrupção contra o PT. Mesmo assim, o professor entende que o dito por Palocci reforçaria o antipetismo, uma das principais estruturas que sustentavam a campanha de Bolsonaro. Após a polêmica, o PT fez uma operação de contenção de danos, para que o candidato do partido – Fernando Haddad – não fosse tão prejudicado.

Aqui vão alguns conteúdos que te ajudam a entender melhor a questão:

2. O QUE FOI DEFINIDO NO PRIMEIRO TURNO DAS ELEIÇÕES?

Após o primeiro turno das eleições, realizado em 7 de outubro de 2018, já foi possível identificar qual seria a “cara” do Legislativo brasileiro nos próximos quatro anos. As mudanças mais significativas são:

  • 47,3% das cadeiras do Congresso Nacional são ocupadas por novos parlamentares, isto é, quase metade do Congresso possui novos representantes eleitos.
  • O chamado “Centrão” – bloco formado pelo PP, PR, PSD, PRB, PTB, PROS, SD e PSC – continua sendo dono da maior bancada da Câmara, mesmo tendo diminuído em relação a 2014. Antes, somavam 178 parlamentares, agora são 173. Esse número salta para 207 se considerar o MDB como integrante. Levando em conta que são necessários 308 votos para aprovar uma Proposta de Emenda Constitucional (PEC), o novo presidente precisará negociar com o tradicional Centrão quando quiser aprovar leis e projetos.

O analista político Antônio Augusto de Queiroz – diretor do Departamento Intersindical de Análise Parlamentar (DIAP) – prevê que esse será “o Congresso mais conservador de todos os tempos”. O grande número de policiais, celebridades e representantes de igrejas evangélicas eleitos é um dos fatores que justificam essa visão. Queiroz ainda afirma que a fragmentação será grande no novo Congresso. No Senado, por exemplo, o número de partidos passou de 18 para 21.

O Politize! preparou, com base em levantamentos feitos pela UOL, infográficos que te ajudam a visualizar a mudança na “cara” do nosso Legislativo:

Infográfico elaborado pelo Politize! com base em levantamentos da UOL.

outubro de 2018

Infográfico elaborado pelo Politize! com base em levantamentos da UOL.

outubro de 2018

Infográfico elaborado pelo Politize! com base em levantamentos da UOL.

outubro de 2018

Infográfico elaborado pelo Politize! com base em levantamentos da UOL.

outubro de 2018

Como ficou a disputa presidencial?

No primeiro turno, a disputa pelo cargo de presidente levou para o segundo turno Jair Bolsonaro (46,03% dos votos válidos) e Fernando Haddad (29,28%). Ciro Gomes ficou em terceiro lugar (12,47%). A Gazeta do Povo criou um infográfico que mostra qual foi o candidato mais votado em cada estado:

Polarização e violência

O clima entre eleitores de Haddad e Bolsonaro ficou acirrado após o resultado do primeiro turno. Apesar de divergências partidárias serem comuns durante o segundo turno, relatos de agressões verbais e física chamaram atenção. Logo após a divulgação de que os dois nomes que continuariam na disputa presidencial já houve episódios de violência. Na madrugada do dia 08 de outubro de 2018, o mestre de capoeira Romualdo Rosário da Costa, de 63 anos, foi morto a facadas.

O motivo confessado por Paulo Sérgio Ferreira, autor do crime, foi uma discussão política acontecida em um bar de Salvador. Mestre Moa do Katendê, como era conhecido, defendia seu voto em Haddad quando, segundo o irmão da vítima, Paulo Sérgio intrometeu-se na conversa. Após ser repreendido pelo dono do bar por conta da discussão, o autor do crime saiu do estabelecimento e, minutos depois, voltou ao bar e atacou Moa do Katendê por trás, esfaqueando-o.

A missão da Organização dos Estados Americanos (OEA), que acompanhou as Eleições de 2018, também demonstrou preocupação com a violência motivada por política. Os membros da equipe citaram especificamente os mais de 130 ataques contra jornalistas registrados pela Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) durante as eleições. Além dos ataques físicos, profissionais da imprensa também foram vítimas de agressões via redes sociais.

O sociólogo e professor do Instituto Federal Catarinense, Dauto da Silveira, analisa que a escalada da polarização deve-se, em parte, à “insatisfação da população em geral contra o sistema político”. Outro fator destacado por Silveira como motivo da polarização seriam as declarações polêmicas e com referências a violência, tanto de Jair Bolsonaro quanto de seu vice-presidente, o general Hamilton Mourão.

Ao ser questionado sobre a ligação entre suas declarações e as ações de diversos de seus eleitores, Bolsonaro disse dispensar “o voto e qualquer aproximação de quem pratica violência contra eleitores” que não votam nele e pediu que as autoridades tomassem “as medidas cabíveis”.

Quer entender mais sobre esse debate? Confira:

3. A ENXURRADA DE FAKE NEWS

O que não faltou nessas eleições foram notícias falsas. Segundo a agência de checagem Aos Fatos, só no Facebook existiram 1,17 milhão de compartilhamentos das chamadas fake news. Entretanto, esse número ainda está longe da realidade, já que não é possível contabilizar as fake news espalhadas via WhatsApp, que foi a principal plataforma de compartilhamento de notícias falsas durante o período eleitoral.

Para entender o impacto que tantas fake news tiveram nas Eleições de 2018 é necessário entender a força das redes sociais no Brasil e como os eleitores se informam. Em julho de 2018, o Facebook informou ter 127 milhões de usuários no país, enquanto o WhatsApp teria 120 milhões. Há quase tantos usuários dessas plataforma quanto há de eleitores, que são 147 milhões no país – para ter uma noção da influência que as redes podem ter.

Em setembro de 2018, uma pesquisa realizada pela empresa MindMiners mostrou que quase 60% dos entrevistados tinham como principal meio de informação as redes sociais. Dentre essas, o WhatsApp e o Facebook eram as plataformas preferidas por 90% e 85% dos entrevistados, respectivamente. Um levantamento feito pelo Instituto Datafolha realizado na semana que antecedeu o primeiro turno indicou que os eleitores de Jair Bolsonaro (PSL) são as pessoas que mais se informam por WhatsApp (57%) e Facebook (61%).

O cientista Pablo Ortellado, coordenador do Grupo de Pesquisa em Políticas Públicas para o Acesso à Informação (Gpopai) da USP, ainda chamou atenção para o contexto em que tanta desinformação é espalhada: um momento de polarização política. Eugênio Bucci, professor da Escola de Comunicações e Arte (ECA-USP), acrescenta que o que leva as pessoas a compartilharem fake news é a lógica do entretenimento. “A notícia falsa, quando corresponde a um preconceito profundamente enraizado, é fonte de grande prazer. O sujeito vê aquilo e fala ‘eu sabia’”, afirma.

Tiago Tavares, diretor da ONG SaferNet, avaliou que as Eleições de 2018 foram marcadas por uma produção em “escala industrial” de fake news, com objetivo de confundir o eleitor e prejudicar candidaturas. Além de ser necessário apurar a veracidade de notícias, Tavares ainda afirma que é essencial “investigar onde estão sendo produzidas essas notícias falsas, quem está pagando isso. Há difusão espontânea, mas há sinais claros de algum tipo de coordenação entre as fábricas de notícias falsas e a distribuição”.