Como os debates eleitorais funcionam?

[Para ouvir durante a leitura:]

Os debates eleitorais são espaços-chave das campanhas eleitorais brasileiras, sendo realizados por diferentes meios de comunicação (emissoras de televisão, rádio ou veículos na internet). Ao lado do horário eleitoral, é uma das maiores vitrines de divulgação de propostas disponíveis em uma campanha. Vamos entender por que os debates políticos são importantes, como eles são realizados e quais as principais estratégias que os candidatos utilizam para se sair bem neles.

Qual a importância do debate político?

Foto: Marcos Oliveira/Agência Senado

Os debates eleitorais possuem muita relevância por vários motivos. Primeiramente, é importante destacar que eles se tornaram ainda mais importantes para as eleições de 2018. Com campanhas mais curtas e menos gastos do que nos anos anteriores, os candidatos enfrentam dificuldades para divulgar suas candidaturas e propostas. Nesse contexto, os debates televisionados tornam-se uma oportunidade ímpar de exposição. Enquanto o bloco de propaganda eleitoral na TV e no rádio dura apenas 10 minutos neste ano – que por sua vez são divididos entre os candidatos -, os debates podem levar horas. É tempo suficiente para discutir muitos assuntos e deixar uma boa impressão na mente do eleitor.

Mas o debate eleitoral não é bom apenas para os candidatos. Por serem espaços de confronto de ideias, o eleitor tem uma grande oportunidade de comparar os posicionamentos dos candidatos e alcançar conclusões mais contundentes a respeito deles.

Além disso, o debate eleitoral é o momento da campanha em que os candidatos estão mais expostos. Você pode conhecê-los de uma forma que não conseguiria pelas propagandas ou comícios. Nas propagandas, toda a atenção está voltada para o candidato e tudo já foi preparado para que ele transmita uma boa imagem. Já em um debate, essa atenção é dividida com os adversários. Nada está posto: o candidato pode sair muito bem, ou muito mal na foto. Melhor ou pior do que seus concorrentes. Tudo depende de sua capacidade.

O fator improviso é mais um elemento que torna o debate um momento muito especial. Não há como fugir: em um programa transmitido para milhares de pessoas, cujo “roteiro” (ordem e teor dos temas e perguntas) é definido na hora, os candidatos têm grandes chances de serem pegos de surpresa. Para além de preparo prévio e de propostas consistentes, é preciso muito traquejo para elaborar boas respostas.

Como fazer um debate político

Foto: Robson Fernandjes/ Fotos Públicas

No Brasil, as emissoras realizam debates com estruturas variadas. Mas de modo geral, o programa costuma ter um mediador, pessoa que conduz um debate, sendo uma figura neutra que apresenta as regras, organiza e conduz as falas dos candidatos. Outra regra básica é que haja tratamento igual a todos os participantes por parte da emissora.

Regras mais específicas variam, como a divisão dos blocos do debate e o tempo de formulação de perguntas, réplicas, tréplicas e direitos de resposta.

Ao longo dos debates, discorre-se sobre temas pré-definidos ou então escolhidos livremente. As perguntas podem ser feitas entre os próprios candidatos, pela plateia, por jornalistas ou até mesmo pelos mediadores.

Debate político: regras

 Por ser um ambiente de campanha, a legislação eleitoral também traz regras para os debates. Veja algumas das regras mais importantes:

  • Como já dito, todos os participantes devem ser tratados igualmente;
  • Os candidatos não podem fazer pedidos explícitos de voto;
  • A emissora que transmitirá o debate deve convidar os candidatos pelo menos três dias antes do evento;
  • Os debates de candidatos a prefeito podem ser organizados de duas formas: i) um único debate, com a presença de todos os candidatos; e ii) debate em grupos, em datas diferentes, com no mínimo três candidatos por vez;
  • Os debates devem acontecer até o dia 4 de outubro de 2018

Polêmica: quem pode participar de um debate?

Na Reforma Política de 2017, o Congresso aprovou uma medida que causou muita polêmica nestas eleições. Ficou determinado que apenas os partidos com pelo menos cinco deputados federais devem ser convidados a participar dos debates eleitorais. Candidatos dos demais partidos poderiam ser convidados, mas apenas se as emissoras assim decidirem e se dois terços dos candidatos participantes estiverem de acordo.

Essa decisão afetou partidos pequenos com grande potencial de votos no nível municipal. A oposição de candidatos em cidades como São Paulo e Rio de Janeiro foi tão grande que o Supremo Tribunal Federal foi consultado a respeito da constitucionalidade dessa regra. Os ministros determinaram a derrubada da exigência de que 2/3 dos demais candidatos tenham de estar de acordo com a presença de candidatos de partidos menores, deixando a critério exclusivo das emissoras essa decisão.

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Quais as estratégias que um candidato pode adotar em um debate?

Como você pode imaginar, os candidatos chegam ao debate com um planejamento do que falar e de como se portar. Dependendo da posição que o candidato ocupa nas pesquisas, algumas estratégias podem ser mais recomendáveis do que outras. Vamos ver:

Estratégia 1: não participar

Em certas situações, o candidato e sua equipe podem entender que é melhor nem comparecer ao debate. Essa estratégia é uma faca de dois gumes. Por um lado, a ausência pode evitar uma exposição desnecessária a um candidato bem posicionado nas pesquisas eleitorais. Mas o ato de faltar tem um peso simbólico grande. Passa a imagem de que o candidato está fugindo da disputa, que está desinteressado ou que tem medo de perder. Por isso, pode-se dizer que não participar de um debate é uma decisão complexa e que deve ser tomada com muita consciência.

Foto: Ricardo Stuckert/ Institulo Lula

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Um exemplo: em 2006, o então presidente Luís Inácio Lula da Silva era candidato à reeleição. Bem colocado nas pesquisas, Lula e sua equipe eleitoral decidiram que ele faltaria nos últimos debates antes do primeiro turno. Mas, no dia das eleições, Lula não atingiu os mais de 50% de votos necessários para vencer o pleito antecipadamente. No fim, teve de disputar o segundo turno contra Alckmin.

Não se sabe ao certo o tamanho da influência das faltas de Lula nos debates, mas dias depois ele admitiu que essa decisão foi equivocada.

Estratégia 2: defesa ou tangenciamento

Os candidatos podem preferir ser burocráticos nas perguntas e nas respostas. Essa é uma postura comum quando ele está em situação de vantagem na campanha e prefere preservar sua imagem. Também é uma estratégia necessária em casos em que as convicções pessoais do candidato podem ser impopulares entre os eleitores. Candidatos que concorrem à reeleição ou que são apoiados pelo governo atual costumam usar a defesa, tangenciar questões acusatórias ou enaltecendo seu governo ou de seus aliados.

Estratégia 3: ataque e acusação

Mais comum entre candidatos de oposição, o ataque é um recurso usado para demonstrar as fraquezas dos adversários.  Exemplos de ataques são relembrar promessas de campanha não cumpridas pelo candidato de situação, ou expor inconsistências das ideias de outros adversários.

A desqualificação evidentemente visa a causar danos à imagem do adversário, diminuindo seu potencial de votos. Além disso, é uma oportunidade de se diferenciar, ao evidenciar o que é ruim nos oponentes e colocar-se no lado bom. Essa tática pode enfraquecer o debate de ideias e se transformar em um festival de agressões pessoais. Um exemplo desta situação ocorreu com Paulo Maluf e Leonel Brizola no vídeo abaixo:

Estratégia 4: discurso propositivo

Para além de simplesmente atacar ou se defender, espera-se que os candidatos efetivamente exponham suas propostas ao público. Esse é o objetivo do debate, afinal. O ideal é que os meios de se alcançar tais propostas também sejam apresentados, mas nem sempre o candidato consegue fazer isso.

O normal é que os candidatos mostrem suas melhores propostas, aquelas que tenham grande apelo junto aos eleitores e que tenham coerência com sua mensagem. Por outro lado, eles podem se abster de comentar propostas que poderiam revelar contradições e que não sejam populares. Ou acerca de temas nos quais seus adversários já tenham larga vantagem.

Estratégia 5: auto-enaltecimento

O candidato enaltece suas propostas, sua trajetória de vida, as conquistas de seu governo, entre outros. Enaltecer suas próprias qualidades também é comum em debates. Muitas vezes tal postura não vem acompanhada de propostas factíveis.

Estratégia 6: opinião

Muitas vezes o candidato se limita a trazer sua opinião sobre os temas em debate, sem expor propostas substanciais. Opiniões bem colocadas podem ter bom efeito, já que reforçam crenças da maior parte do eleitorado. Além disso, para obter a simpatia dos eleitores, o candidato pode se utilizar de slogans, frases de efeito e lugares comuns.

Estratégia 7: argumento de autoridade

O argumento de autoridade consiste em justificar opiniões, ideias e propostas a partir da autoridade de outras pessoas. Podem ser citados depoimentos de líderes e formadores de opinião, por exemplo.

  • “Pessoa importante X apoia isso, é evidente que é uma boa ideia”.
  • “Instituições Y e Z são contrárias ao que meu adversário defende, você tem certeza de que ele é a melhor opção?”.
  • “A minha biografia é íntegra, pode perguntar para A, B e C que eles assinam embaixo”.

Esse argumento é frequentemente utilizado, muitas vezes de forma sutil. É capaz de convencer eleitores que possuem respeito pelas instituições ou pessoas citadas pelo candidato.

É claro que esses são apenas alguns exemplos de vários recursos retóricos e argumentativos usados em todos os debates, que podem ser falaciosos ou não.

Sendo assim…

É notável a importância dos debates políticos para o cidadão ter mais conhecimento sobre seus candidatos. Neste momento, é interessante focar na posição do seu candidato em relação a temas que são prioritários para você, eleitor ou eleitora, e também para seu círculo social. A mudança que desejamos ver em nosso país começa por aí!

E você, o que acha dos debates eleitorais? São uma boa forma de conhecer os candidatos? E a polêmica lei que dava a candidatos poder de veto contra candidatos de partidos menores: qual a sua opinião? 

Aviso: mande um e-mail para contato@politize.com.br se os anúncios do portal estão te atrapalhando na experiência de educação política. 🙂

Publicado em 9 de setembro de 2016. Última atualização em 24 de setembro de 2018.

Bruno André Blume

Bacharel em Relações Internacionais da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e ex-editor de conteúdo do portal Politize!.