História do Partido Novo: entre a renovação e o pragmatismo político

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O Partido Novo é um dos mais jovens partidos políticos brasileiros. Nascido do descontentamento de seus fundadores com a política tradicional, ele ganhou notoriedade em todo o país a partir das eleições de 2018. Sua posição no debate público ficou marcada pelas propostas de renovação e pela defesa de uma menor intervenção do Estado na economia.

Com o tempo, a sigla passou por transformações e hoje busca se reestruturar, após o resultado ruim no pleito de 2022. Siga com a Politize! para saber mais sobre a trajetória do Novo desde a sua fundação até a atualidade.

Fundação do Partido Novo

O Novo foi fundado em fevereiro de 2011 e registrado no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) em setembro de 2015. A legenda conta com uma lista de 185 fundadores de 10 estados e 35 profissões diferentes, em sua maioria, profissionais liberais ou ligados à área empresarial.

João Amoêdo, fundador do Partido Novo. Imagem: Tiago Queiroz / Estadão.

Entre os idealizadores do projeto, destaca-se a figura de João Amoêdo. Nascido no Rio de Janeiro, onde cursou engenharia civil e administração de empresas, Amoêdo atuou por muitos anos no mercado financeiro. Seu sucesso no setor lhe rendeu um grande patrimônio, permitindo que realizasse um aporte de cerca de 4,5 milhões de reais para viabilizar a criação do partido.

Desde então, o ex-executivo teve um papel central na construção e na divulgação do Novo, que presidiu por duas vezes: a primeira, entre a data de fundação e julho de 2017; a segunda, entre janeiro de 2019 e março de 2020.

Principais bandeiras do Partido Novo

Em geral, os fundadores do Novo construíram a carreira na iniciativa privada e não possuíam experiência política prévia. Seu sentimento de insatisfação com os políticos tradicionais levou o partido a adotar, inicialmente, posições contrárias a práticas recorrentes no meio político, como a formação de coligações e o financiamento público de campanhas eleitorais e atividades partidárias.

Em termos ideológicos, a agremiação se posiciona à direita no espectro político. Entre suas principais bandeiras estão o liberalismo econômico, a defesa absoluta do direito à propriedade privada e o enxugamento da máquina pública.

Em relação a pautas de fora do campo econômico, o Novo é contrário ao Estatuto do Desarmamento e favorável ao reconhecimento da união civil entre pessoas do mesmo sexo. A instituição não se posiciona sobre outros temas, como aborto, legalização das drogas e eutanásia, deixando os filiados livres para manifestar diferentes visões.

Veja também: Esquerda e direita na economia: principais diferenças.

Desempenho eleitoral do Partido Novo

As eleições municipais de 2016 foram as primeiras que contaram com candidaturas do Novo. Na ocasião, o partido elegeu 4 vereadores, passando a marcar presença nas Câmaras de São Paulo, Belo Horizonte, Porto Alegre e Rio de Janeiro.

Já em 2018, a sigla obteve um resultado significativo, considerando que essa foi sua estreia em eleições gerais. Foram eleitos para o Legislativo 8 deputados federais, 11 deputados estaduais e uma deputada distrital. Além disso, a legenda foi capaz de alçar o empresário Romeu Zema ao governo de Minas Gerais, segundo maior colégio eleitoral do país.

Na corrida presidencial, o Novo foi representado pela candidatura de João Amoêdo, que obteve a 5a colocação, com 2.679.744 votos (2,5% do total). Embora o partido não tenha se posicionado oficialmente no segundo turno, muitos filiados, incluindo Zema e Amoêdo, declararam voto em Jair Bolsonaro (PSL) contra Fernando Haddad (PT).

Em 2020, a agremiação teve um desempenho superior ao de 2016, elegendo 28 vereadores em 19 cidades, além do prefeito e da vice-prefeita de Joinville (SC).

Porém, nas eleições gerais de 2022, o Novo teve um resultado ruim, se comparado ao de 2018. Apesar de Zema ter sido reeleito no primeiro turno em Minas Gerais, a sigla garantiu a reeleição de apenas 3 dos seus 8 deputados federais e preencheu somente 5 assentos nos legislativos estaduais. Além disso, seu candidato ao Palácio do Planalto, Felipe D’Avila, terminou na 6a posição, com 559.708 votos (0,47%).

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Divergências internas no Partido Novo

Durante o mandato de Jair Bolsonaro (2019-2022), começaram a surgir divergências internas relevantes no Partido Novo. Desde o início de 2020, com a chegada da COVID-19 ao Brasil, João Amoêdo passou a defender o impeachment do então presidente, diante de suas declarações minimizando a gravidade da emergência sanitária.

Em março daquele ano, Amoêdo deixou a presidência do partido, que foi assumida por Eduardo Ribeiro. Apesar de não estar mais à frente da instituição, Amoêdo seguia opinando sobre seus rumos nas redes sociais.

Com o tempo, o agora ex-presidente do Novo subiu o tom das críticas públicas a Bolsonaro e a mandatários da própria sigla que relutavam em fazer uma oposição mais contundente ao presidente da República. Amoêdo considerava algumas de suas atitudes inaceitáveis e lamentava que certos membros do partido tivessem se tornado bolsonaristas, na sua percepção.

Isso gerou um mal-estar entre o fundador da legenda e outras lideranças, especialmente Romeu Zema e os integrantes da bancada federal. Os deputados não defendiam o afastamento de Bolsonaro e recusavam-se a integrar o bloco oposicionista, seja pelo fato de ele ser liderado por partidos de esquerda, seja pela afinidade com algumas pautas do governo, em especial na área econômica.

Bancada do Novo na Câmara anuncia voto favorável à Reforma da Previdência apresentada pelo governo Bolsonaro em 2019. Imagem: Partido Novo.

Muitos filiados passaram a questionar a postura de Amoêdo, por considerarem inadequada a exposição pública de críticas aos próprios membros do partido. Para eles, o ideal seria debater e solucionar as diferenças internamente.

Esse embate e outras divergências levaram o Novo a rachar em dois grupos. Vale a ressalva de que essa é uma simplificação didática. Pode haver integrantes da sigla cuja visão não se encaixa perfeitamente em nenhum dos lados, mas a divisão proposta facilita a compreensão do conflito interno no partido. Vejamos as posições de cada grupo.

Ala mais próxima a Amoêdo

Para Amoêdo e outros filiados ou dirigentes partidários com visão semelhante, o Novo deveria:

  • Endurecer as críticas à gestão de Bolsonaro;
  • Defender o impeachment do então presidente;
  • Integrar a oposição ao governo;
  • Possuir maior uniformidade ideológica, defendendo um liberalismo mais moderado e alguns princípios considerados inegociáveis, como o respeito às instituições democráticas;
  • Atrair novos quadros apenas se estritamente alinhados aos princípios e valores partidários;
  • Crescer com cautela, preservando a sua imagem;
  • Manter-se fiel a propostas e práticas que vinham desde a sua fundação, como não utilizar recursos do Fundo Partidário e do Fundo Eleitoral, não realizar coligações e não permitir que mandatários disputassem outros cargos eletivos antes de completar o mandato.

Ala crítica a Amoêdo

Já para os críticos às posições e à gestão de Amoêdo, o partido deveria:

  • Criticar Bolsonaro com parcimônia e defender as propostas do governo que considerasse positivas para o país;
  • Deixar de levantar a bandeira do impeachment;
  • Manter a independência em relação ao governo no Congresso;
  • Possuir maior diversidade ideológica interna, com espaço para defensores de diferentes correntes do seu campo político, como conservadores, libertários, liberais clássicos e liberais sociais;
  • Atrair novos quadros segundo critérios mais flexíveis;
  • Adotar uma estratégia de crescimento mais ousada;
  • Flexibilizar algumas propostas e práticas em nome do pragmatismo político e da competitividade eleitoral.

O segundo grupo acabou prevalecendo na disputa interna, que culminou com a saída de Amoêdo do partido, após sua declaração de voto em Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no segundo turno das eleições de 2022.

Antes da votação, o Novo havia divulgado uma nota em que liberava os filiados para declararem seus votos de acordo com “sua consciência e com os valores e princípios partidários”, mas reforçava o posicionamento institucional contrário a Lula e ao PT. Zema e outros nomes da legenda apoiaram Bolsonaro (PL), que não conseguiu se reeleger.

Leia também: Fundo Eleitoral x Fundo Partidário: quais as diferenças?

Novo na oposição ao governo Lula

Na gestão de Jair Bolsonaro (2019-2022), o Novo se declarava independente. Segundo levantamento do site Congresso em Foco, o partido votou com o governo em 75% das ocasiões. Mesmo ficando um ponto percentual acima da média da Câmara (74%), a legenda foi apenas a 16a mais governista, atrás de outras de direita, ou mesmo de centro.

Hoje, a sigla integra a oposição a Lula. Considerando as votações dos parlamentares entre o início da legislatura e o dia 25 de maio de 2023, o partido é o que votou menos vezes com o governo. Seu índice de governismo é de somente 25%, enquanto o PL de Bolsonaro aparece como segundo maior oposicionista, com 30,48% de adesão aos projetos do Planalto. 

Os deputados do Novo já assinaram mais de um pedido de impeachment do presidente da República. A instituição afirma que sua bancada vem fazendo “um trabalho incansável” contra o que considera medidas abusivas e irresponsáveis da atual administração.

Reestruturação do Partido Novo

Nova logo do Partido Novo, com uma miniatura da bandeira nacional e letras cujo design remete às suas formas geométricas. Imagem: Partido Novo.

Superada a crise com Amoêdo, o diretório nacional do Novo vem buscando reestruturar o partido. Depois do mau resultado nas urnas em 2022 e da perda de mais de 30% dos filiados, a nova gestão passou a realizar mudanças nas diretrizes partidárias.

Em fevereiro deste ano, a legenda decidiu abrir mão de um posicionamento histórico, passando a permitir o uso dos recursos de rendimentos do Fundo Partidário.

O Novo já havia tentado, sem sucesso, mudar a lei para que pudesse devolver sua fatia do Fundo aos cofres públicos. Diante da impossibilidade de devolução, seus dirigentes optaram por mantê-la depositada em um fundo para que não fosse redistribuída aos demais partidos.

Com a nova decisão, a sigla passará a utilizar os rendimentos provenientes desse depósito, por entender que os recursos são necessários para garantir a paridade de armas na disputa política.

O partido também está trabalhando para profissionalizar os diretórios estaduais e pretende expandir sua abrangência, lançando candidatos em mais de 500 cidades nas eleições municipais de 2024.

Além disso, a legenda tem buscado novas filiações. Ela amplicou sua bancada no Congresso, ao filiar, em fevereiro de 2023, o senador cearense Eduardo Girão, e aumentou sua quantidade de vereadores, prefeitos e deputados estaduais, atraindo novos membros. Outra filiação relevante foi a do paranaense Deltan Dallagnol, ex-deputado e ex-procurador da Operação Lava Jato.

Em suma, o Novo vem abandonando algumas ideias presentes em sua concepção original, que muitos consideravam ser “puristas” e descoladas da realidade política. A atual direção passou a permitir a adoção de práticas mais pragmáticas, que considera fundamentais para a sobrevivência e o crescimento da instituição.

Por outro lado, seus parlamentares seguem atuando pautados por convicções ideológicas. Essa característica ainda os diferencia de muitos políticos tradicionais, em especial aqueles do chamado centrão, que tendem a apoiar as pautas do governo em troca de emendas parlamentares para irrigar suas bases eleitorais.

Críticas às mudanças no partido

Além das críticas vindas de fora da direita, o Novo vem sendo alvo de avaliações negativas por integrantes de grupos do seu próprio campo político, como o Movimento Brasil Livre (MBL). Mesmo alguns ex-filiados criticam duramente os rumos do partido, pois entendem que ele perdeu seus diferenciais, ao se afastar dos propósitos originais e deixar de inovar. 

Eles avaliam também que a sigla aderiu ao bolsonarismo e faz uma oposição irresponsável ao atual governo. Um dos exemplos apontados como evidência disso é a votação de dois dos seus três deputados federais contra a Reforma Tributária, considerada uma medida essencial para o país pela maior parte dos liberais e por pessoas de outros campos ideológicos.

Agora que você conhece a história do Partido Novo, já sabe dizer se digitaria ou não o número 30 na urna? Ainda ficou com alguma dúvida ou curiosidade? Deixe suas impressões nos comentários!

Referências

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2 comentários em “História do Partido Novo: entre a renovação e o pragmatismo político”

  1. Perfeita explicação, quanto a devolução aos cofre públicos, o partido tentou doar para compra de respiradores no período da COVID, no entanto foi negado.

  2. É triste ver uma proposta muito boa se perder assim, mas de qualquer forma ainda parece ser o melhor dentre esses partidos “caça dinheiro” que existe hoje.

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20 jul. 2024

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