O QUE É IDEOLOGIA GÊNERO (E POR QUE FALAM TANTO DELA)?

Manifestantes protestam contra e a favor da participação da filósofa Judith Butler (Foto: Rovena Rosa | Agência Brasil).

ideologia de gênero

Você já ouviu falar em ideologia de gênero? Esse termo é relativamente novo, mas veio à tona com nova força durante as Eleições de 2018 e muitas pessoas passaram a utilizá-lo, mas será que todos entendem seu real significado? É justamente sobre o que o termo quer dizer e porque a questão de gênero gera tanto debate que o Politize! vai tratar neste texto. Vamos lá?

AFINAL, O QUE SIGNIFICA IDEOLOGIA DE GÊNERO?

“Ideologia de gênero” é um conceito, ou seja, um termo que busca representar uma realidade. Para entender melhor o que termo significa nos debates sobre a questão de gênero, é interessante desmembrá-lo:

O que é ideologia?

O pensador Norberto Bobbio considera que existe um significado “fraco” e um “forte” para ideologia.

O significado fraco diria respeito a um conceito neutro, responsável por organizar um conjunto de valores políticos para assim orientar comportamentos coletivos. Por exemplo, a social democracia é uma corrente de pensamento político que, entre outras coisas, aceita o capitalismo como sistema econômico vigente, mas busca compensar seus “efeitos colaterais” – como a desigualdade de renda – por meio de políticas públicas. Assim, ao se classificar ideologicamente como um social democrata, um candidato tende a atrair eleitores que concordam com as ideias defendidas por essa corrente política.

Já o significado forte de ideologia tem um sentido negativo, porque acredita que as noções ideológicas – pautadas no senso comum – são contrárias aos conceitos criados cientificamente. Esse senso comum – que, por ser oposto à ciência, tenderia a ser errôneo – seria construído por uma classe dominante que buscaria criar uma falsa interpretação da realidade na classe dominada.

O que é gênero?

O conceito de gênero é presente no movimento feminista desde os anos 1970 e é entendido não como sexo biológico, mas como as construções sociais baseadas nos sexos biológicos. Pode parecer confuso, mas nós explicamos melhor.

Por muito tempo pregou-se que os homens eram superiores às mulheres por características biológicas. Essas características não se referiam apenas à força física, por exemplo, mas também afirmavam que homens eram mais inteligentes e éticos. O conceito de gênero então surgiu para contestar isso. “Gênero” não é uma palavra mais bonita para se referir ao sexo biológico, mas um termo que vê essa desigualdade na percepção das capacidades de homens e mulheres como algo socialmente construído.

Ao se falar em “questão de gênero”, por exemplo, faz-se referência às atividades culturalmente atribuídas às mulheres – como cuidar da casa e dos filhos – e aos homens – como sustentar financeiramente a família. As teorias feministas explicam que essas ideias são construídas com base nos costumes, não nas capacidades biológicas. Afinal, um homem não é fisicamente incapaz de limpar a casa e nem uma mulher é fisicamente incapaz de trabalhar como engenheira e sustentar financeiramente sua família.

O fato de as expectativas sobre os “papéis” atribuídos a homens e mulheres cisgêneros* serem diferentes ao redor do mundo, mudando de cultura para cultura, reforça a teoria feminista de que essas expectativas são construídas socialmente. Se você quiser saber mais sobre isso, confira o texto que o Politize! fez sobre gênero.

*Cisgênero? Esse termo é utilizado para se referir às pessoas que se identificam com o gênero que lhes foi designado ao nascer, ao contrário das pessoas transexuais. Também falamos mais sobre isso no post sobre orgulho LGBT, vale à pena conferir!

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Finalmente, o que é ideologia de gênero?

Acredita-se que o termo “ideologia de gênero” apareceu pela primeira vez em 1998, em uma nota emitida pela Conferência Episcopal do Peru intitulada “Ideologia de gênero: seus perigos e alcances”. O evento nacional que reúne bispos de todo o país é uma tradição da Igreja Católica no mundo inteiro.

Desde seu surgimento, a expressão “ideologia de gênero” carrega um sentido pejorativo (negativo, ofensivo). Por meio dela, setores mais conservadores da sociedade protestam contra atividades que buscam falar sobre a questão de gênero e assuntos relacionados – como sexualidade – nas escolas. As pessoas que concordam com o sentido negativo empregado no termo “ideologia de gênero” geralmente temem que, ao falar sobre as questões mencionadas, a escola vá contra os valores da família.

Dentre esses valores está o medo de que o debate menospreze crenças familiares e gere intolerância religiosa, tanto por parte dos professores quanto de outros colegas. Outro medo é que a ideologia de gênero induza crianças a serem homossexuais ou transexuais. Geralmente tais grupos também discordam da teoria que aponta gênero como sendo socialmente construído e acreditam que o sexo biológico define tanto o gênero quanto a sexualidade da pessoa. Consequentemente, entende-se que a heterossexualidade é o “natural”.

A filósofa Arlene Bacarji, por exemplo, define ideologia de gênero como:

“Uma “ideologia” que atende a interesses políticos e sexuais de determinados grupos, que ensina, nas escolas, para crianças, adolescentes e adultos, que o gênero (o sexo da pessoa) é algo construído pela sociedade e pela cultura, as quais eles acusam de patriarcal, machista e preconceituosa. Ou seja, ninguém nasce homem ou mulher, mas pode escolher o que quer ser. Pois comportamentos e definições do ser homem ou mulher não são coisas dadas pela natureza e pela biologia, mas pela cultura e pela sociedade, segundo a ideologia de gênero.”

Ela afirma que “temos de entender que existem os aspectos biológicos que não podem ser negados, eles são reais e dados. Loucura são as vezes que escapamos da realidade para fazer de nossas fantasias, alucinações e delírios uma realidade”.

Por “fantasias, alucinações e delírios”, a filósofa se refere à ideia defendida por movimentos feministas de que a biologia tem pouca relação com a questão de gênero. Bacarji discorda de que os papéis atribuídos a homens e mulheres são construídos a partir de relações de opressão, resultado de uma cultura machista. Ela ainda questiona “será que um homem pode exercer o papel de mãe? Será que uma mulher pode ter a mesma força física de um homem de forma natural, sem nenhum recurso externo como hormônios masculinos?”.

Bacarji adiciona que “hoje, vivemos a loucura, em que as pessoas fazem de seus delírios uma realidade e ainda querem impô-las aos outros por meio de leis” e demonstra preocupação de que “as crianças e os adolescentes poderão, ingenuamente, crer nisso”.

Saiba mais: o que é conservadorismo?

IDEOLOGIA DE GÊNERO NO BRASIL?

No Brasil, o termo “ideologia de gênero” ficou famoso quando o Ministério da Educação (MEC) buscou incluir educação sexual, combate às discriminações e promoção da diversidade de gênero e orientações sexuais no Plano Nacional de Educação (PNE), em 2014. Os últimos dois pontos, no entanto, geraram uma grande reação por parte de grupos conservadores, que não consideravam as pautas sobre questão de gênero apropriadas ao ambiente escolar, e o projeto foi barrado. Após muitos protestos por parte da população, liderada por grupos religiosos e pelo Escola sem Partido, o PNE foi aprovado sem fazer menção a gênero e orientação sexual.

Nas Eleições de 2018 o termo voltou à tona com as diversas menções que o então candidato Jair Bolsonaro (PSL) fazia ao “kit gay”, nome pejorativo dado ao projeto “Escola sem Homofobia”. Bolsonaro e muitos de seus apoiadores constantemente afirmavam que Fernando Haddad (PT), seu adversário na corrida presidencial, havia distribuído um determinado livro sobre educação sexual a crianças de seis anos. Segundo eles, Haddad teria incluído a obra no projeto “Escola sem Homofobia” enquanto era ministro da educação, entre 2005 e 2012. Posteriormente, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) decretou a afirmação como fake news, isto é, como uma informação falsa e proibiu que a campanha de Bolsonaro usasse o termo “kit gay” para atacar Haddad.

Mesmo assim, a história do “kit gay” levantou novamente a questão de gênero. O pesquisador Rogério Diniz Junqueira vê a propagação das fake news relacionadas à utilização do termo “ideologia de gênero” como uma maneira de assustar a sociedade. Elas levariam as pessoas a se alinharem com aqueles grupos que também são contra o debate da questão de gênero. Junqueira também ressalta que, mesmo que debates sobre gênero envolvam diversos assuntos, como desigualdade salarial entre homens e mulheres, os pontos lembrados ao acusar um grupo de implementar a ideologia de gênero são sempre mais polêmicos. Ao associar educação sobre questões de gênero a aborto, sexualidade e pedofilia, por exemplo, gera-se um “pânico moral”.

O pesquisador diz que esse “pânico moral possui forte potencial mobilizador e alta capacidade de atrair diferentes atores que nem precisam ser muito conservadores ou preconceituosos, mas que, diante do escândalo fabricado, ficam alarmados”. É assim que alguns grupos transformam certas iniciativas – por exemplo, que busquem ensinar a respeitar a diversidade de orientações sexuais existentes na sociedade – na negativa e perigosa “ideologia de gênero”.