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Identitarismo ou movimento identitário: o que é e seu impacto

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Imagem: Unsplash.

Você sabe o que é o identitarismo? Nesse texto vamos conhecer como esse movimento que une pessoas com características e demandas similares se organiza.

Conheça os principais movimentos identitários da atualidade, sua história, suas reinvindicações, e o impacto que geram na sociedade e na política.

O que é o movimento identitário

O movimento identitário, ou identitarismo, nasce de grupos sociais formados por pessoas que compartilham aspectos da sua identidade e, logo, possuem interesses, perspectivas e demandas em comum. Trata-se da agrupação de pessoas com características similares, como orientação sexual, etnia, classe, nacionalidade, etc, que busca visibilizar suas dificuldades e lutar por seus direitos. Exemplos de grupos identitários que conhecemos hoje em dia são os que lutam pela igualdade de gênero, pelo fim do racismo, pela preservação ambiental, entre outros.

Muitas vezes, uma mesma pessoa pode se identificar com diversos rótulos, já que os sinais identitários são variados e não mutuamente exclusivos. Alguém pode se definir como do gênero feminino, classe média e raça negra, por exemplo. Quando combinados, esses aspectos da identidade podem, inclusive, descrever grupos hiperespecíficos, um conceito que explica a interseccionalidade.

História do identitarismo

O movimento identitário nasce da expressão “identity politics”, ou “políticas identitárias”, criado por um grupo feminista estadunidense chamado Combahee River Collective nos anos 70. Era um movimento de mulheres negras e lésbicas que não se sentiam representadas pelo movimento feminista, predominantemente branco, em suas demandas específicas.

Leia mais: 5 pontos sobre feminismo que você precisa saber

As representates desse coletivo colocam a identidade própria como o principal motor do fazer político. Em seu Manifesto, dizem:

“We believe that the most profound and potentially most radical politics come directly out of our own identity, as opposed to working to end somebody else’s oppression.” (tradução livre: “Acreditamos que a política mais profunda e potencialmente radical vem da nossa própria identidade, ao invés de lutar pelo fim da opressão de outros”.)

Ainda no Manifesto, as representantes do coletivo garantem que não existe separação entre suas distintas características identitárias como grupo, já que denunciam a opressão sexual, racial e de classe de igual forma. Assim, ao mesmo tempo que lutavam contra o racismo, também confrontavam seus companheiros progressistas homens negros em relação a suas atitudes sexistas.

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As pautas identitárias ganharam destaque nos últimos anos graças à repercussão de movimentos como Occupy Wall Street, Mee Too, e Black Lives Matter. Cada uma dessas manifestações representa grupos marginalizados ou minoritários que através da organização e difusão pelas redes sociais conseguiram chamar a atenção para os problemas que enfrentam. No Brasil, o identitarismo começou a repercutir graças a esses movimentos globais e ganhou força em 2018 com as eleições e os debates políticos levantados naquele momento.

Quem critica o movimento identitário

As críticas ao identitarismo dizem que este gera segregação entre pequenos grupos que, ao invés de separar suas lutas, deveriam organizar-se de forma mais massiva já que compartilham interesses em comum.

Nesse artigo, Marcel Coelho, editor do canal trabalhista Sol de Outubro, explica como as pautas identitárias não deveriam se desconectar da luta de classes. “A história testemunha a tentativa, bem-sucedida, em desagregar grupos com interesses comuns, confrontando-os através de pequenos privilégios, oferecido a um dos lados e minando suas forças contra o inimigo comum. Nesse caso, os patrões”.

O autor explica que as lutas dos índios, comunidade LGBTI, mulheres, negros e trabalhadores são específicas, mas também comuns e interseccionais, já que possuem uma raiz em comum: a desigualdade social.

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Outros críticos concordam com essa visão de que a política identitária pulveriza as questões sociais e separa grupos que poderiam caminhar lado a lado em suas reinvidicações. “Hoje a pauta identitária interdita o debate político e seu discurso sectário e conceitual se afasta do diálogo popular.”, diz Carolina Maria Ruy, jornalista e coordenadora do Centro de Memória Sindical, em um artigo de opinião ao portal Brasil de Fato.

Ela afirma que as políticas identitárias são mais comuns entre a classe média dos centros urbanos, porém estão afastadas da população em geral e esse afastamento explicaria porque o povo acaba encontrando acolhimento em políticos como Donald Trump e Jair Bolsonaro. “Dissociar a luta de classes do ativismo social faz com que os militantes não se identifiquem como trabalhadores, criando uma barreira entre uma militância seleta que se vê como “vanguarda” e o povo”, diz.

Em 2022, alguns políticos têm se pronunciado sobre o identitarismo de forma negativa. Alberto Cantalice, membro do diretório nacional do PT, escreveu em seu Twitter em janeiro que “o identitarismo é um erro. É uma pauta criada por ativistas dos Estados Unidos e que não tem similaridade com questões brasileiras. É a velha síndrome de colonizado que permeia setores ‘progressistas’. Confundem a questão central — a desigualdade — e se divorciam da realidade do povo”.

Em um discurso semelhante, o prefeito do Recife João Campos (PSB) disse em uma entrevista ao GLOBO que “os problemas e as soluções do Brasil não estão nessas pautas puramente identitárias ou ideológicas”.

Suas falas demonstram uma ideia que vem ganhando força em setores da esquerda, que assume que para ganhar as eleições o debate deve priorizar assuntos mais gerais, como a desigualdade, desemprego, problemas econômicos, e deixar em segundo plano temas como racismo, machismo e homofobia, que poderiam afastar eleitores mas tradicionais e conservadores.

Já outra visão é a que defende o doutor em ciência política Luís Fernandes, que diz que a agenda identitária é válida e que discriminações de raça, gênero, identidade sexual e outras são geradoras de desigualdade. Porém, para ele, o Estado deveria se limitar a proteger a liberdade dessas pessoas, sem colocar a pauta no centro da agenda política.

Dessa forma, não estaria promovendo comportamentos sociais que não são aceitos pela maioria. “A consequência é a criação de divisão social e a rejeição a partidos de esquerda, por parte de parcelas da população que, a princípio, estariam dispostas a apoiar políticas progressistas – de maior acesso à educação e à saúde públicas, por exemplo –, mas que não toleram o estímulo a comportamentos que consideram imorais – como é o caso de pessoas religiosas que consideram que a homossexualidade é um pecado.”, disse em entrevista ao jornal Gazeta do Povo.

Em outra nota com tom similar, o doutor em filosofia e colunista da revista Cult Wilson Gomes se questiona se a “esquerda identitária precisa decidir o que disputa no campo político, se quer ganhar eleições ou se quer simplesmente vencer o campeonato de superioridade moral”.

Em seu artigo, comenta como grupos ultraconservadores se utilizam do discurso identitário para se aproximar dos eleitores que se sentem rejeitados ou satanizados pelos grupos identitários. “O que o bolsonarismo vendeu foi a ideia de que se você é cis, branco e hétero, a esquerda/os comunistas/os direitos humanos/os petistas lhe farão arrastar correntes para sempre, farão políticas públicas para transferir seus direitos para as suas minorias preferidas, não reconhecerão seus méritos e valores e ainda destruirão a sua imagem.”, explica.

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Quem defende o identitarismo

Pessoas filiadas aos partidos de esquerda, especialmente mais jovens e adeptos dos movimentos negro, LGBTQIA+ e feminista, estão em desacordo com as críticas mencionadas acima. Rui Falcão, deputado federal e ex-presidente do PT, afirma que as pautas identitárias não podem ser minimizadas porque estão intimamente conectadas com as desigualdades sociais.

“São lutas pelos direitos civis. Não são lutas de minorias, porque somadas essas ditas minorias, são maioria na sociedade. Se contar a população negra, por exemplo, é maior que a população branca, parda e oriental. Então, um partido que quer transformar e construir o socialismo tem que tratar de todas essas questões”, disse em entrevista.

Sua preocupação e a de muitos representantes de movimentos identitários é que a simples mudança de poder econômico não resolva questões como o racismo ou o machismo. Por exemplo, mesmo com um mercado de trabalho aquecido e com oportunidades, ainda existem problemas como o fato de homens ganharem mais que mulheres, ou brancos em relação a negros.

Embora Falcão reconheça que a fragmentação política tenha suas desvantagens no cenário eleitoral, tampouco acredita que podemos subestimar as discriminações que esses distintos grupos sociais vivem dia a dia.

Essa é também a visão da socióloga Flávia Rios, que em entrevista ao jornal Nexo explica como as lutas das mulheres, pessoas negras, indígenas, comunidade LGBT e outros grupos trazem à cena pública demandas por reconhecimento e igualdade. Mas não está de acordo que são culpados de fragmentação política.

“Esse discurso sobre um suposto divisionismo estabelece o pressuposto de que há uma oposição entre os grupos que reivindicam diversidade, pluralismo, respeito, reconhecimento, e os que reivindicam demandas materiais ou econômicas. Isso não é verdadeiro.”

Segundo ela, enquanto a estratégia da extrema direita é não ocultar as pautas identitárias, mas confrontá-las e apresentar-se abertamente contra elas, a esquerda prefere desviar do debate, o que seria um erro nas eleições de 2022.

“A melhor estratégia é o esclarecimento e a defesa da vida, do reconhecimento e respeito para todos. O que o discurso político progressista precisa garantir é a pluralidade de vozes e de demandas sociais, porque esse é um dos maiores testes democráticos dos últimos tempos”, defende.

O que achou do identitarismo? Está do lado de seus defensores ou seus críticos? Deixe seus comentários para continuar a conversa.

Referências:

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3 comentários em “Identitarismo ou movimento identitário: o que é e seu impacto”

  1. João Rodolfo Hopp

    Esclarecedora e muito equilibrada a publicação, pois traz ao leitor opiniões de atores balizados, tanto prós como contras ao ativismo em seus mais variados matizes, deixando ao leitor a tarefa de tirar as suas próprias conclusões.

  2. Não se pode confundir movimentos identitários com movimentos contra a opressão de raça ou de gênero, por exemplo. São coisas diferentes.

    Apesar de serem anteriores ao termo “política identitária”, os movimentos nacionalistas dos anos 30 são todos identitários, ou seja, partem de uma “identidade comum”. Assustadoramente, isso inclui Salazaristas, Franquistas, Fascistas, Nazistas, Integralistas, Falangistas, Sionistas, KKK, White Power e por aí vai.

    Por se basear em uma identidade pessoal (que pode ser real ou inventada), os movimentos identitários são estritamente moralistas, ou seja, partem dos sentimentos individuais e não da realidade concreta. Isso os leva a ter políticas e propostas no campo moral e, geralmente, pela negativa, o que os afasta das necessidades reais das pessoas e os aliena da busca da solução para esses problemas.

    Esse moralismo fica nítido, por exemplo, na negação das pautas uns dos outros, desqualificando e negando o direito de outros grupos de identidade de terem suas próprias pautas. Como partem do sentimento, aqueles que não sentem uma dor tendem a não reconhecer a dor do outro. Nesse ponto, os movimentos identitários tendem a ser excludentes, não includentes.

    Na contramão disso, os movimentos contra a opressão, como alguns dos movimentos feministas, por exemplo, tendem a ter pautas positivas, ou seja, pela afirmação. Eles partem das necessidades concretas e de soluções para essas necessidades.

  3. Reduzir as identidades a un prolema económico é um absurdo marxista e uma forma de querer manipular os movimentos sociales não alineados a partidos políticos.

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Conteúdo escrito por:
Contadora de histórias formada em Jornalismo pela Unesp. Trabalhou com diferentes equipes em projetos de comunicação para meios, agências, ONGs, organizações públicas e privadas. É natural de São Paulo e atualmente vive em Montevidéu, Uruguai.

Identitarismo ou movimento identitário: o que é e seu impacto

11 jul. 2024

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